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Da solidão do Planalto a Monumento Cultural da Humanidade

19.04.2020 - 17:45:00
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Ao comemorar os 60 anos da inauguração de Brasília, comemoro também meus 60 anos de jornalismo. Decantada como cidade do terceiro milênio que iria surpreender o mundo, surpreendeu!
 
Cumpriu, assim, o confuso sonho de Dom Bosco, abraçado como verdade por Juscelino Kubitschek de Oliveira, que a denominara Capital da Esperança, em sua saga mudancista para interiorizar o próprio país. E ela surpreendeu ao ser eleita, com apenas 27 anos, ainda inacabada, como Patrimônio Cultural da Humanidade, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), pelo ineditismo de um conceito urbano.
 
Falar sobre Brasília requer dois sentimentos essenciais – conhecimento e paixão.
 
Conhecimento de suas muitas histórias reais ou fantasiosas. Sua humanística humanizado de uma cidade voltada a se adaptar aos seus habitantes, ao contrário das velhas metrópoles. Isso aliado a uma arquitetura avançada e atemporal, com estrutura urbana que motivou a Unesco a elevá-la ao status de Patrimônio Cultural, fato inédito na história mundial, o que a torna diferenciada aos olhos do mundo. Sua eleição se dera não apenas pela obra arquitetônica de Niemeyer, mas pela visão de aconchego comunitário de seus habitantes, de Lúcio Costa, que desenhou as superquadras em gabarito uniforme e rígido das edificações com o máximo de seis pavimentos, ocupação somente de 25% do solo, com pilotis livre, acessível a todos. Acesso único para cada superquadra, cujo entorno é ornado por uma faixa verde de 20 metros, a qual lhe dá o caráter “pátio interno urbano”.
 
No aspecto turístico Brasília possui 15 eventos que a tornam a maior do mundo. Descrevê-los-emos nos textos de sua estrutura. Formalmente Brasília é a terceira capital do Brasil, sucedendo Salvador e Rio de Janeiro. Na informalidade, porém, é a quarta e segunda a ser interiorizada. Durante o Império era comum a capital ser transferida do Rio para Petrópolis, no interior do Estado do Rio de Janeiro, que passava a ser o centro de despachos de nossos monarcas.
 
A nova Capital foi construída em apenas mil dias sobre os pilares da modernidade. Para falar sobre ela tem que ter paixão, sentimento que nos toma cada vez que repetimos sua história e suas belezas. É, em si, uma obra de arte que nos comove, pela emoção que moveu seu artífice, Juscelino Kubitschek, a criá-la como uma cidade símbolo da modernidade sem perder o charme bucólico das fantasias místicas e inspiradoras de seu caráter atemporal.
 
Nasceu predestinada a integrar o Brasil em seu todo, encurtando as distâncias geográficas como o cérebro administrativo do país, abarcando os três poderes da República, base do comando político da nação.
 
“É uma cidade de céu aberto, com uma visão infinita do horizonte, sem ter quer erguer os olhos”, disse a mim, pessoalmente, Cora Coralina, num dos encontros que tivemos.
 
Brasília nos desperta comovente admiração com o significado de cada monumento, obras de arte, o misticismo e religiosidade, a multiplicidade cultural.
 
Diz o poeta que todo o charme de Brasília está no seu próprio céu, o mais azul, mesclado por nuvens brancas que parecem plumas de algodão flutuando no espaço sobre um horizonte infinito, onde se vê o nascer e o pôr do sol sem ter que levantar os olhos. Brasília é tão plana e alta que inspirou até um Ministro de Estado garantir que a terra é plana também.
Sem ufanismo, basta conferir: Brasília é a mais turística das capitais do mundo moderno por ser depositária do mais rico acervo arquitetônico, urbanístico e obras de arte. Seus atrativos começam pelo céu que, segundo Lúcio Costa, é o seu mar.
 
É saliente a pluralidade étnica de seus habitantes e suas manifestações ambientais, mesclando monumentos e esculturas em meio a espaços inspiradores à imaginação. Isso além de manter o maior museu a céu aberto do planeta, à luz do sol do cerrado, com 16 km de extensão, chamado Eixo Monumental. Concentra, num só espaço, obras dos mais importantes gênios das artes contemporâneas, como Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Athos Bulcão, Volpi, Fernando Ceschiatti, Mariane Pereti, Di Cavalcante, entre tantos outros.  
 
Embora comemore apenas 60 anos de sua inauguração, suas histórias são bem antigas. Começaram com o levante conhecido como Inconfidência Mineira, em 1792; depois, em 1808 pelo Marquês de Pombal fazendo essa sugestão à Corte Imperial; e o sonho de Dom Bosco em 1883. Mas o lado institucional de sua história, de fato, só começa a ser desenhado após a inclusão na Constituição Federal de 1891, cujo texto, em seu Art. 3º, determinava a mudança da Capital Federal do Rio de Janeiro para o interior do Brasil.
 
À época o presidente da República, Floriano Peixoto, chamado de Marechal de Ferro, após conhecer os resultados da Missão Cruls por ele nomeada para demarcar o quadrilátero no Planalto Central, onde seria assentada a cidade administrativa da nação, encantou-se pelos dados cartográficos de Louis Cruls e chegou a prometer que transferiria a capital para o Centro-Oeste mesmo que tivesse que despachar em barracos de lona. Pena que renunciou logo após a entusiasmada promessa. Sucedido por Prudente de Moraes, que engavetou o projeto. No entanto um dos passos mais concretos posterior foi o faroeste de Getúlio Vargas em 1944, até a Saga de JK, nos anos 50. É uma ampla e interessante trajetória cheia de nuances, curiosidades, fatos notáveis e até surreais.
 
A religiosidade e o misticismo são fatores que tornam a Capital diferenciada. Essa espiritualidade se expressa no próprio traçado do Plano Piloto em formato de cruz. Tal caráter religioso é cultuado em mais de mil templos para adoração de todos Deuses e credos. Até o marco de fundação foi uma Cruz de madeira, onde se celebrou a primeira missa da nova capital antes de ser inaugurada. O misticismo começa pela sua semelhança e comparações ao antigo Egito. Tese defendida pelas múltiplas coincidências piramidais em comparação à cidade egípcia de Aton, e o estilo de JK ao do Faraó Akhenaton, na construção de cidades para serem capital. Ambas as cidades, a egípcia e a brasileira, são ornadas por um grande lago artificial para amenizar seu clima seco.
 
O nome Brasília emergiu de carta de José Bonifácio de Andrada e Silva, o patriarca da Independência, ainda na época do Império, manifestada a deputados paulistas reunidos no Congresso e na Corte em Lisboa. Nessa época já advogava a mudança da capital para o interior
 
A visão futurista de JK de um “Brasil moderno” só iria ocorrer ao desafiar e vencer sérias dificuldades políticas, de transporte e especialmente financeira, para viabilizar seu ideal. Assim que assumiu a presidência do Brasil, em 1954, lançou um concurso nacional para escolher os responsáveis pela elaboração do plano piloto da cidade. 41 projetos concorreram. Os vitoriosos foram o urbanista Lúcio Costa e o arquiteto Oscar Niemeyer, que já haviam realizado outras obras para Juscelino quando ele governava Minas Gerais.
 
No meio do nada, como os Faraós, para construir suas Pirâmides em pleno deserto, sem camelos para carregar grandes pesos de pedras, rodovias ou ferrovias e a milhares de quilômetros da costa marítima, JK foi mais criativo: transportou todo material básico da construção via aérea numa época em que aviões de carga eram raros.
 
Em antagonismo os operários eram transportados amontoado em paus-de-arara, como se animais fossem.
 
São circunstâncias de uma realidade histórica. Imagine só as dificuldades, mas assim nasceu Brasília.
 
*José Osório Naves é jornalista e escritor, que vai lançar um livro-documento sobre Brasília e sua história. 
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por José Osório Naves

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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