Goiânia – Primeiro, me roubaram o voto.
Sabe, como é… Mesmo sem muita paixão, votei na Dilma Roussef em 2014. O governo dela não ia bem. Arrocho econômico nunca é algo agradável. Mas aí o cara do helicóptero e sua turma resolveram jogar pra cima o papo mole de democracia. É óbvio que os grandes meios de comunicação toparam a parada. E logo nossa classe média – massa de manobra macia que só ela – estava lá, batendo panela.
Democracia é regime de participação. Não é só votar e pronto. Tem que estar junto, fiscalizando, cobrando. Se o governo vai mal, simbora pra rua, exigir ajustes de percurso. Quiseram a cabeça da presidenta – logo ela, sobre quem jamais pairou a menor sombra de improbidade pessoal. Conseguiram. E com isso, me roubaram o conforto de não defender a Dilma.
Porque defender a Dilma não me deixava motivado. Preferia acompanhar, cobrar, criticar. Não deu. Tive que voltar pra zaga. Estava claro pra mim: a defesa da Dilma não era outra coisa senão a defesa da democracia. E veio o golpe – que alguns néscios insistem em chamar de impeachment.
Aí prenderam o Lula. Pra isso, tiveram que me roubar a Constituição – atentem para o simbolismo da minha escolha de manter maiúsculo o “C” da nossa carta-magna. E eu que pensava que nunca mais teria que defender o Lula…
Tá certo. O cara tirou algumas dezenas de milhões da miséria, erradicou a fome, ampliou o acesso à educação superior e talicoisa. É muito para o Brasil. Mas pouco pra mim. Quando tinha mais de 80 % de aprovação popular, perdeu a chance de chutar a bunda dos banqueiros, do agronegócio, da especulação financeira, dos fundamentalistas religiosos, dos super-ricos, dos grandes meios de comunicação. Deixou quieto, achando que todo mundo seria legal, se tivesse se dando bem. Deu no que deu. Resultado: eu bradando aos quatro ventos que o Lula é a figura política mais importante da história deste país.
Me roubaram a camisa verde-amarelo da seleção. Mas disso eu não posso reclamar. Quem, em sã consciência, leva o time da CBF a sério? Há tempos o futebol brasileiro é uma vergonha. E quando os coxinhas transformaram aquela camiseta em símbolo político, só tive a agradecer. Cá entre nós, sem ufanismo: aquele amarelo é feio demais, não? Parece a cor da pele do atual presidente…
Só que me roubaram o vermelho também. Nunca fui fashion. Camiseta preta é uniforme. Mas gosto de vermelho também. Então, foi deprimente demais ficar com receio de sair de casa ostentando uma peita rubra. É fascismo que chama.
Surrupiaram peças do meu vocabulário. “Mimimi”, por exemplo. Não que eu usasse com frequência. Acho até que nunca usei. Mas está proibido. Coxinha e minion é aquilo: quem parece, é. Porque quem não é, não gosta de parecer. Então, usar “mimimi” está fora de questão.
Do “kkk” eu sinto falta. Já tive olhos de águia. Hoje, preciso de óculos para leitura – que nem sempre estão à mão. Enxergar o que está escrito no celular é um tormento. Digitar, um inferno. Então, mandar um “kkk” como resposta a um papo em rede social era uma benção. Era.
“Kkk” é uma das pouquíssimas coisas que este fenômeno social apelidado de minion é capaz de escrever. Uma marca registrada. “E o Queiroz? E as relações com as milícias? E a entrega do Pré-Sal?” Resposta: “O lula tá prezo! KKK!” Ao menos faz sentido: Na época da posse, me lembro que um dos únicos elogios veio da Ku Klux Klan. “Ele soa como nós.”
Sou um roqueiro xarope dos anos 90. Reservava uma parcela considerável da minha raiva juvenil aos medalhões da MPB e dinossauros do rock. Me roubaram isso também. Como eu posso falar mal da Daniela Mercury depois da sentada que ela deu no presidente? Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque? Aiai… Eu é que não abro mais a boca para detoná-los.
Na minha turma, tínhamos o papo que Pink Floyd bom era com o doidaço psicodélico Syd Barrett. Que o “The Wall” era brega e datado. Sei. Roger Waters é, hoje, o artista mais relevante da música. E fez uma baita diferença ano passado, no Brasil. Virei fã desde criancinha. E me autoflagelo sempre que recordo não ter ido ao show. É burrice que chama.
Mas o pior de tudo foi que roubaram o ódio que sinto – ou melhor, sentia – pelo Carnaval. Sempre detestei – o que é muito diferente de dizer que não presta. Sei lá porque cargas d’água, o reinado de Momo nunca me pegou. Acho tudo um saco: as músicas, a dança, a folia, a Globeleza, aqueles sambas-enredo, o axé, a Ivete, a repetição, os sorrisos de 400 dentes na boca – mesmo nos banguelas. Carnaval perfeito, para mim, é em Goiânia – que miraculosamente se transforma em cidade-fantasma.
Em 2019 foi diferente. O Carnaval se converteu num festivo ato político. De norte a sul, o Brasil dançou seu desprezo por este governo (que sequer completou três meses de existência). A vitória da Mangueira é a vitória de Marielle. Segue acesa a chama da luta, da resistência e da esperança. E não tem golden shower que apague, tá ok?