Tomara que vocês ainda não estejam enjoados d’eu falar da Alemanha. Porque hoje o texto mais uma vez se refere a esse país. Mas, é a última vez, prometo. É que essa terra acabou me marcando bastante e até hoje estou digerindo o que vi e vivi. De todas as emoções e aprendizados, hoje quero compartilhar o de estar em um antigo campo de concentração. Para fechar essa viagem para Alemanha e conhecer sua cultura e história, não queria deixar de visitar um. Pela proximidade da cidade em que estava, fui ao Bergen-Belsen, situado no noroeste da Alemanha.
Não é um passeio que se faz com a mesma alegria e entusiasmo de ir visitar um monumento, um parque ou até mesmo um museu. É dolorido e extremamente triste. Bergen-Belsen era um dos campos mais bem estrategicamente localizados e, por isso, assim que as tropas americanas e britânicas se aproximavam, a SS logo tratou de começar a destruir tudo que tinha por ali. Hoje, tudo o que há é um cemitério, um enorme memorial com fotos, depoimentos, poucos objetos que sobraram e as mesmas árvores e paisagem que abrigaram violentos momentos há menos de 70 anos. Foi lá que a famosa menina que queria ser jornalista, Anne Frank, morreu.
Bergen-Belsen entrou em funcionamento primeiro para aprisionamento de soldados soviéticos e em 1942 viria a ser um campo de concentração. Recebeu muitos prisioneiros de guerra da Itália e Rússia, mas também muitos judeus alemães, ciganos e homossexuais. Ao contrário do que se imagina, não houve câmaras de gás ali. Mas, se querem saber, descobri que Bergen-Belsen foi ainda mais cruel do que se as tivesse diante das condições (não consigo encontrar palavra pior que subumanas) cruéis a que foram submetidos os inimigos do Führer.
Não, não acredito mesmo que tenha algum episódio na história da humanidade que se compare aos campos de concentração. Concordo genuinamente com Hannah Arendt quando ela diz que não, isso não. Isso ninguém poderia imaginar, os campos de concentração nunca deveriam ter existido. Nem o Apartheid, nem nenhuma ditadura na América Latina, nada se compara à crueldade de um campo de concentração. Simplesmente porque não houve confronto.
A guerra mesmo veio de fora para dentro, porque ali, na Alemanha, crianças, mulheres, homens, idosos foram conduzidos aos campos como animais que vão para o abate. Crianças que deixaram os amiguinhos e a escola, pais que abandonaram os trabalhos e casas, esposas que se separaram dos maridos, adolescentes com um futuro pela frente, cidadãos que poderiam ter feito uma Alemanha e um mundo melhor. E o pior, nenhuma razão justificava. Em um dos depoimentos dos vídeos expostos no memorial, uma senhora (na época criança), perguntava à mãe: “por que, mamãe? Porque deixam a gente passar fome e frio?”. “Eles nos odeiam, filha, só por isso”, a mãe respondeu. “Mas, por que, mamãe?”, questionou. “Simplesmente odeiam, filha. Não há razão”.
Uma das coisas que mais me chocou foram as infâncias roubadas nos campos de concentração. Depois que completamos 20 anos talvez não faça tanta diferença cinco anos a mais: ter 27 ou 32, 45 ou 48. E ter 11 e 16 anos? Ou 8 e 13? Períodos de grandes mudanças. E foi isso que aconteceu com uma geração toda que passou sua infância e adolescência nos campos de concentração. Além de se acostumarem a nunca ter o que comer e passar frio, a morte foi relativizada.
Em um dos depoimentos um senhor diz que perdeu totalmente a referência de morte, pois eram mortos para todos os lados. “Eu pensava: é normal, não é? Gente morta assim? Não é assim em todo lugar do mundo?” As brincadeiras eram passar pelos cadáveres e tentar adivinhar o peso: “esse tinha 30kg, esse 35kg, essa 29kg”. Ou ainda de colocarem as mãos por dentro das costelas para ver quem conseguia colocar mais fundo. Por fim, ao invés de polícia e ladrão, brincavam de nazistas e judeus.
A fome com o passar dos anos só agravava. A guerra ia chegando ao fim e cada vez menos a SS tinha como alimentar seus prisioneiros. Dividia-se um pão entre seis. Há depoimentos de russos que contavam que chegavam a comer cintos de calça, mas logo eles também acabaram. Tudo o que havia na floresta também já tinha se tornado refeição: cogumelos a minhocas. Outra senhora conta que, quando foi libertada, e então passaria a se alimentar normalmente, ela não conseguia mais comer. Há quatro anos não sabia o que era se alimentar dignamente e então toda vez que via comida, ficava tão alegre, que seu estômago tremia e então ela não conseguia comer.
Até que o inverno chegava para agravar a fome e o frio. Não havia abrigos suficientes para todos os prisioneiros que não paravam de chegar ao campo. Faziam-se valas na terra e dormiam ali, juntos, se aquecendo. Quando um acordava doente e não conseguia se levantar para trabalhar, os soldados tampavam as valas, com as pessoas ainda vivas deitadas. Faltava água e as questões de higiene começavam a agravar paulatinamente, com o crescente número de pessoas com tifo e piolhos (uma das razões também que levou à destruição do campo: as doenças).
Mas, sinceramente, nada me doeu mais do que quando, finalmente, os prisioneiros foram liberados. Depois de ler sobre tudo o que passaram, todas as crueldades que ali viveram, a sensação que temos é: isso tem que acabar logo. Acontece que desde o inverno até abril, quando foram liberados, o tempo pareceu ter sido tão lento e os problemas se agravaram tanto. Enfim, chegaram as tropas britânicas e americanas: “vocês estão livres, mas a guerra ainda não acabou. Vocês não podem sair daqui”, um soldado disse.
Que felicidade deve ter sido ver os soldados chegando e ouvir que estavam livres, certo? Não. Todos os depoimentos demonstravam o nada a que foram reduzidos esses homens. Sem capacidade alguma mais de sentir – felicidade, tristeza, horror – e de viver, estavam sempre a espera de que sua morte viria. “Eu estava tão doente, tão fraca, que nem sabia se acordaria viva no dia seguinte”, uma senhora testemunhou.
“Free to do what?” (livre para fazer o quê?), essa fala, sim, foi a que mais mexeu comigo. Ir para onde? Fazer o quê? Quem vai cuidar da gente agora? Eram essas as perguntas que se faziam. Tudo foi roubado: suas famílias mortas, suas cidades destruídas, sem nenhuma crença na pátria, todos direitos tolhidos: sem passado, futuro e presente. Viver, para eles, não significava sorte ou sinônimo de felicidade. Representava um grande fardo ou desafio: “por que eu sobrevivi? Qual minha missão?”, um deles se questionou.
E seguiram suas vidas. Casaram-se, foram para outros países. Comunidades judias aos poucos se restabeleceram. Os alemães que participaram da guerra também seguiram em frente, sem olhar para trás, sem querer discutir ou contar tudo o que houve. É a geração dos pais do meu amigo. E por isso a péssima relação entre seu avô e seu pai. E não só eles, mas toda essa geração, a do confronto, a que buscava liberdade e compreender o que houve. Uma missão que fica não só para os alemães, mas para todos nós: entender o que aconteceu e jamais permitir que se repita.