“Não sou coveiro!” foi a grande resposta do presidente à pergunta sobre as mortes na atual pandemia. A estratégia não era novidade: na semana anterior, em outra entrevista, havia iniciado sua fala com a premissa da negação, a chamada apófase: “Eu não sou médico, mas…”
Quase mania, a estratégia do presidente é recorrente, mas não é sua criação. Três mil anos atrás, os gregos já haviam identificado essa estratégia, de uso disseminado entre políticos. Com o pomposo nome latino de modus tollens, a falácia da negação da conseqüência busca torcer o raciocínio. O grande ponto da falácia é atribuir a questão e o problema ao outro, eximindo-se de toda a responsabilidade. Além disso, ao atribuir uma falsa relação de conseqüência, o falastrão tenta fazer o interlocutor perder seu raciocínio, desqualificando seu argumento.
A montagem da falácia é básica: juntem-se duas premissas e utilize uma delas para negar a outra.
1. Um coveiro enterra os mortos,
2. Não sou coveiro,
3. Portanto não sei quantos mortos há.
Dentro do arremedo argumentativo, há um antirraciocínio: O coveiro detém a exclusividade do conhecimento sobre a morte? Se não sou coveiro não posso conhecer a informação? Devo negar-me a inteirar sobre o que faz o coveiro? Claro que não! E o próprio presidente sabe disso, já que, semana passada, ao demitir um ministro, afirmou solenemente que o demitido era muito bom na saúde, mas não tinha a “visão ampla” que o chefe do governo teria, ele mesmo. Pois agora vai ao extremo oposto, alegando desconhecimento de detalhes do ofício do coveiro.
Outro que abusa do recurso, de afirmar algo pela sua negação, é Trump, não por acaso. Ano passado, ao falar sobre o líder norte-coreano: “não vou dizer que ele é baixinho e gordinho”.
Não importa aqui se nossos presidentes estudaram lógica e suas falácias. Mesmo que seu uso seja intuitivo, a intenção e premissa básica de toda falácia é confundir o interlocutor, desorientá-lo. Nos primórdios da humanidade, no momento em que o primeiro ser humano argumenta a partir de um raciocínio, nasce também o antirraciocínio. Com a lógica, nasce a falácia.
Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha; o raciocínio ou a falácia? A pergunta – capciosa, mas sempre atual – é mais importante que a resposta.
*Wolney Unes é professor da UFG