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“Deixem o homem trabalhar” – maldita imprensa livre e vendida!

16.08.2020 - 15:00:13
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Nada mais bizarro que a costumeira frase, tão repetida agora – “Deixem o homem trabalhar”, culpando as críticas da mídia pelo marasmo governamental. As repetidas frases, “imprensa maldita e vendida”, levam-me aos meus tempos de início na profissão de jornalista à época da eleição de Juscelino Kubitschek, cuja imprensa predatória era quase tão maligna como os fake news de hoje, para destruir honra e reputação de políticos e das próprias instituições. A eleição de JK ocorreu em meio à maior turbulência política, o país sob o manto negro de Estado de Sítio, com as garantias individuais suspensas. As figuras mais tradicionais do PSD, partido do político mineiro, não apoiaram sua candidatura, mas JK contava com o suporte de setores mais progressistas do partido como o deputado federal por São Paulo, Ulysses Guimarães. Da chamada direita saudável e progressista, JK foi eleito neste conturbado ambiente, tendo menos voto que seu vice (votava-se em separado para Presidente e Vice) João Goulart, da mais predatória esquerda, comunista mesmo.

Na época não havia segundo turno. Ou ganhava-se de primeira ou não levava.

Os ataques virulentos do jornalista e deputado Carlos Lacerda contra JK eram impiedosos. Era chamado de corrupto e amoral. Isso não impediu sua vitória em 3 de outubro de 1955 com 36% dos votos sobre seus oponentes: o militar Juarez Távora (UDN/PDC/PSB/PL), com 30%; Ademar de Barros (PSP), com 26%; e o integralista Plínio Salgado (PRP), com 8%. No seu jornal “Tribuna da Imprensa”, Carlos Lacerda criava pânico, com falsas notícias, nos setores da classe média antes da eleição.
Depois das eleições tentou-se um golpe para impedir a posse dos eleitos. Segundo Lacerda, Jango, com a ajuda do argentino Perón, do PCB e do dinheiro “espúrio” de JK, contrabandeava um arsenal bélico da Argentina para “implantar a ditadura sindicalista” no Brasil.

Esses ataques eclodiram no chamado Levante de Novembro, comandado pelo coronel Jurandir Bizarria Mamede, ligado à Escola Superior de Guerra, que escolheu o enterro do general Canrobert Pereira da Costa (chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e então presidente do Clube Militar) para defender o golpe contra a posse de JK e Jango, que se realizaria no início de 1956. No entanto uma figura política pouco lembrada da história brasileira, general Henrique Teixeira Lott, garantiu a Constituição e impediu o golpe militar pretendido pelos setores conservadores das Forças Armadas e lideranças retrógradas. Para felicidade da nação.

JK assumiu e cumpriu as suas três metas de campanha, que na verdade foram quatro: 1 – Industrialização do Brasil para cá trazendo a indústria automobilística; 2 – Integração Nacional com a construção de 20 mil quilômetros de rodovias interligando a país de Sul a Norte e Leste a Oeste, tendo como epicentro o centro geodésico do Brasil; e 3 – Desenvolvimento Agropecuário, incentivando esse negócio no desabitado interior do país, que concentrava seu polo desenvolvimentista e produtivo no litoral.
A quarta meta, chamada Meta Síntese, foi a construção de Brasília, interiorizando o comando da nação para integrar o centro decisório nacional no plano mais alto do território brasileiro.

Tudo isso relembrado tem o foco de comparações no comportamento governamental. Juscelino, com as maiores e mais impiedosas críticas, jamais as demonizou ou lamentou as hostilidades. Simplesmente trabalhou, sem procurar culpados, especialmente a liberdade de expressão da mídia imprensa e eletrônica da época, que se não tinha emissoras fortes como a demonizada Globo de hoje, mas a voz contundente do rádio, que atingia todas as camadas sociais, com forte apego popular.

Ante o flagelo exasperado de críticas ao seu Governo, o que fez JK? Sem parar de trabalhar e seguir suas metas, convocou uma entrevista coletiva de imprensa, no Rio de Janeiro, convidando seus mais ácidos críticos para o debate.

A cada voraz pergunta acusatória, com toda tranquilidade e educação perguntava ao interlocutor: como você faria em meu lugar? Preciso de sua ajuda. Assim desmontou um a um seus algozes e até detratores gratuitos.

Ganhou, assim, a confiança da mídia e continuou trabalhando, tornando-se o maior e insuperável de todos os estadistas brasileiros. 

Simples assim.

*José Osório Naves é jornalista e escritor.

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por José Osório Naves

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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