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Demasiado humanas

26.03.2012 - 12:06:15
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Minha amiga foi promovida. Graças à sua competência e iniciativa, vai ocupar um cargo mais alto na empresa e será transferida para uma unidade maior, em outra cidade. Passada a euforia da conquista, ela me manda uma mensagem, tarde da noite, dizendo que “a ficha caiu” e que estava com uma sensação de “desamparo”.

A cada dia alcançamos voos mais altos. Produzimos mais e melhor, somos rápidas, eficientes e dedicadas. E quanto mais rendemos, mais somos exigidas. A cada novo desafio, mais suor, esforço e a subida de um novo degrau. Mas a altura muitas vezes dá vertigens. O abismo atrai e espanta na mesma medida.

“Vou conseguir fazer tudo isso hoje?”, “Sobreviverei a tantas metas e exigências?”, “Estou exausta, acho que não vou dar conta…”, “Se eu chorar baixinho, será que alguém vai perceber e me repreender?”. Atire a primeira pedra a mulher que nunca teve um desses pensamentos (ou todos juntos) ao longo do dia.

Fomos criadas para ser independentes, fortes, decididas e batalhadoras. Nos disseram que teríamos de ser bravas e guerreiras perante à vida, dentro e fora de casa, com padrão ISO 9000 de qualidade. Só não nos ensinaram como fazer isso sem ter medo, nem angústia, nem ansiedade ou qualquer sentimento do gênero.

Dualidade bem representada pela colega de profissão e talentosa escritora Cássia Fernandes, que, dia desses, fez em seu perfil no Facebook o seguinte desabafo: “Você sai às 18 horas esbaforida do trabalho, depois de baterem com o telefone na sua cara. Pega 30 minutos de trânsito. Seu filho de três anos é um dos últimos na escola. Sentado no balancinho, ele te olha e diz: ‘estava aqui sozinho, sem ninguém'”.

Diante da cena, Cássia, mestre em pílulas de poesia, fez a seguinte: “Você quase não dá conta/Você nem sempre acerta/Você raramente chega/Na hora certa/ E não chora”. Pois é, não choramos. Se um homem vai às lágrimas é sensível e refinado. Se uma mulher chora no trabalho é bipolar e descontrolada.

E quanto mais trabalhamos e seguramos o choro, mais vontade temos de chorar. Quanto mais conquistamos e desafiamos, mais medo sentimos. Medo de nos perder de nós mesmas, de nossos sonhos mais acalentados, daqueles que amamos ou que gostaríamos de poder vir amar – se tivéssemos mais tempo e menos cansaço.

Desde cedo somos ensinadas a cuidar: primeiro das bonecas e dos irmãos, depois do namorado, do marido e dos filhos, e mais tarde dos pais e netos. E por sermos tão cuidadosas e atentas, o mundo acha que podemos nos virar sozinhas e negligencia nossa carência. Quem vai cuidar de nós? Quem poderá nos livrar do desamparo?

Diante da dúvida, a constatação de que não somos máquinas nem seres autossuficientes. A percepção de que somos falíveis, frágeis, ansiosas, desejosas e carentes de afeto.  A conclusão de que, parafraseando Nietzsche, somos humanas, demasiado humanas.

Cientes de nossa humanidade, que possamos chorar sem vergonha e demonstrar nossa necessidade de amor e aconchego. Que não tenhamos constrangimento de pedir, em alto e bom som, que cuidem de nós tão bem quanto são cuidados; que nos deem a mão, porque estamos cansadas demais para caminhar sozinhas.

Que saibamos que é impossível fazer tanto, em tão pouco tempo e com tamanha perfeição, sem ter taquicardia nem medo. Que diante de nossa condição humana possamos reconhecer nossos limites e necessidades a aprender a respeitá-los, pois eles nos diferenciam das máquinas e dão sentido às nossas vidas.

O refrão de “Where do the children play” http://www.youtube.com/watch?v=C2rDp6FnbP0, do Cat Stevens, resume bem a questão: “I know we’ve come a long way/ We’re changin’ day to Day/ But tell me, where do the children play?” (Eu sei que viemos de um longo caminho/ Estamos mudando dia-a-dia/ Mas me diga, onde as crianças brincam?)

Nossa criança interior quer tempo para sorrir espontaneamente, para levantar-se depois de um tombo sem sentimento de fracasso. Quer pedir colo e proteção quando a vida real parecer assustadora demais. Quer nos ensinar que estamos sempre aprendendo e, por isso, não precisamos resistir tanto em admitir que pouco sabemos.

À amiga do início da crônica, meu apoio e afeto incondicionais. Minha cumplicidade por também ter ido longe demais e ter sentido o desamparo tantas vezes, engolindo o choro e fingindo não sentir medo. E o compartilhamento da lição de que conquistar o mundo é muito bom, mas se a conquista couber no espaço de um abraço é ainda melhor.

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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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