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Desculpe, foi engano

08.05.2013 - 09:21:21
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Goiânia – Quem nunca recebeu um daquelas telefonemas por engano em que, do outro lado da linha, alguém revelava algo, fazia um pedido ou declaração, dava um aviso, sem que se tivesse tempo para dizer que não, que a pessoa havia se enganado, que havia ligado para o número errado, que ali não estava o ouvido desejado, mas um outro, alheio e desconhecido?

Certo dia, recebi um telefonema desses, a cobrar. O homem dizia, ansioso e apressado:

“Irene, diga a Maria que estou arrependido, que ela me perdoe. Estou pegando o ônibus das duas em Cristalina. Chego aí às cinco. Fale pra ela me esperar na rodoviária.”

Eu bem tentei dizer que, ao menos que eu soubesse, não me chamava Irene, que não conhecia Maria, não era por insensibilidade que não iria avisá-la, que respeitava seu arrependimento, mas que tampouco iria esperá-lo na rodoviária. Ele, contudo, não me deu chance. Desligou. Liguei para aquele número, mas era um orelhão (é, eles ainda existiam). Atendeu outro desconhecido.

“Você acabou de ligar para meu celular, mandando dar um recado para uma tal  Maria?”

“Não.” Tum tum tum tum.

Pobre João ou Sebastião ou José ou Flávio ou Rodrigo. Espero que tenha chegado certeiro a seu incerto destino, que não tenha o coração partido de decepção porque lá não estava Maria para que lhe reiterasse o ansioso pedido de perdão. Espero que não tenha culpado Irene por um recado não dado. Droga! Eu estava bem interessada em saber mais detalhes daquela interessante história.

Fico às vezes pensando nesses curiosos ou bizarros enganos, nos pequenos ou grandes mal entendidos, nas suas consequências e resultados, nos segredos revelados à pessoa errada, sobretudo nesses novos tempos de grande conectividade, de celulares, SMS, de correios eletrônicos abundantes. 

 Há alguns meses também um jornalista amigo meu recebeu num celular corporativo algumas mensagens repletas de revelações e venenos sobre certa moça, namorada de determinado rapaz:

“Julinho,” – nomes e expressões alteradas e omitidas aqui para resguardar a privacidade da boa alma denunciante, dos denunciados e dos jornalistas acidentalmente envolvidos – “aquela ali é uma verdadeira… Fez isso e aquilo. Procure saber detalhes da época em que namorou Godofredo Batista.”

Meu amigo ficou perplexo, mas, pouco discreto, mostrou o recado à redação inteira do veículo onde trabalhava, de tal forma que, poucos minutos depois, pelo menos a metade dos jornalistas mais bem informados da cidade, hábeis na utilização dos milagrosos mecanismos de busca da internet e redes sociais, já havia reconstruído a história em seus mais sórdidos detalhes, já conhecia seus protagonistas e familiares, gente de nome e expressão na alta sociedade. Por sorte, não temos por cá daqueles tabloides sensacionalistas, que se interessem por fofocas e baixarias de subcelebridades. Se tivéssemos, talvez se tivesse produzido significativo estrago, fezes teriam sido espalhadas pelo ar condicionado.

Sim, há que ter cuidado. Quem nunca mandou também uma mensagem para um e-mail errado? Quando eu era cronista de um jornal local, recebia mensagens de leitores comentando os textos publicados, alguns elogiosos, outros nem tanto. Um dia, recebi uma mensagem de uma moça me pedindo gentilmente para avisar ao jornal que, com a minúscula grafia de meu endereço de e-mail, frequentemente confundiam uma letra com outra e ela recebera observações a mim destinadas. Encaminhara-me algumas, mas já não iria fazê-lo. Agradeci o zelo e, aproveitando a ocasião, esclareço a ausência de respostas ao que me foi endereçado ou desendereçado.

E ainda a propósito desses enganos, há um livro saboroso chamado Carta para Você: Declarações de amor em tempos modernos (Alfaguara, 2009) uma coletânea de 41 autores atuantes de diversos países, inclusive brasileiros, convidados a escrever cartas de amor. O livro traz, entre várias delicadas cartas, uma divertidíssima história escrita pela americana Lionel Shriver, construída apenas com os e-mails enviados por uma mulher que se apaixonara obsessivamente por um homem com quem tivera uma única noite e que lhe deixara, não um número de celular, mas apenas um e-mail.

Desejosa de reencontrá-lo, ela lhe escreveu vezes seguidas, jamais obtendo resposta. “Espero que você não se importe com o fato de eu ter reenviado aquele primeiro e-mail mais algumas vezes no final de semana”. Diante de tão obstinado e injustificado silêncio, ela até ameaçou por fim à própria vida com o gás do fogão, quando alguém rompeu o silêncio. Não era ele, porém. Endereço errado. O erro estaria na informação ou na digitação? Vale ler, sensibilizar-se e se divertir com esse verdadeiro panorama do amor nos tempos de hoje. Do amor, de suas baixarias e de seus enganos, inclusive de destinatário. E o romance epistolar continua por aí, mais vivo do que nunca.
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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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