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Dimensão universal ao imaginário goiano

01.05.2016 - 15:34:26
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Goiânia – No ano passado, José J. Veiga teve sua vida e obra relembradas por duas razões importantes: o centenário de seu nascimento e a transferência do direito de publicação de suas obras para a prestigiosa editora Companhia das Letras, que desde então já relançou os títulos Os Cavalinhos de Platiplanto, A Hora dos Ruminantes e Sombras de Reis Barbudos.
 
Embora tais acontecimentos mereçam aplausos pelo que representam em si e por terem se tornado também pretexto para que a obra do escritor goiano chegue a novos leitores e mereça uma retomada de atenção crítica, as razões para ler seus contos e romances prescindem de efemérides ou estratégias de mercado. Veiga, como todo grande autor, conseguiu sagrar-se atemporal, imune a barreiras das circunstâncias.
 
As narrativas de José J. Veiga são surpreendentes e escapam a tentativas de restringi-las a contextos históricos, a exemplo da sempre mencionada alegoria política da ditadura brasileira, e a movimentos literários. Ele mesmo não se definia como regionalista ou integrante da chamada literatura fantástica, do realismo mágico, ao lado de expoentes como o mexicano Juan Rulfo e o colombiano Gabriel García Márquez. Talvez porque, embora dialogue com tais influências, não se renda por completo a elas, alcançando uma linguagem original, universal, que emerge do particular, de suas raízes no interior goiano, com sua riqueza telúrica e imaginário peculiar.
 
José Jacinto Veiga (o Jacinto, conforme explicava foi abreviado em J. a conselho do amigo Guimarães Rosa) nasceu em uma propriedade rural entre Corumbá de Goiás e Pirenópolis. Ainda jovem, em 1935, mudou-se para o Rio de Janeiro, de onde se projetou internacionalmente, vindo a ser reconhecido como o escritor nascido em Goiás mais cosmopolita do século 20. 
 
Estudou na Faculdade Nacional de Direito, trabalhou nos jornais O Globo e Tribuna da Imprensa, dirigiu a Editora da Fundação Getúlio Vargas, foi revisor da revista Seleções de Reader´s Digest  e comentarista na BBC de Londres. Pelo conjunto da sua obra, traduzida em 18 países, ganhou em 1997 da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Machado de Assis.
 
No livro de estreia, Os Cavalinhos de Platiplanto, de 1959, quando já estava com 44 anos, nota-se como reminiscências da infância em Goiás alimentam a atmosfera mágica e onírica dos 12contos. As palavras remontam ao jeito típico de falar na região em décadas passadas, assim como costumes descritos soam familiares a nós, goianos, pois muitos resistem às aceleradas transformações dos últimos anos.
 
“De maio a agosto, os meses sem R, ninguém podia tomar banho no rio, dava febre”, descreve o menino narrador do conto A Ilha dos Gatos Pingados, que mais adiante reclama do sonho desfeito de sua ilha-refúgio: “Estava tudo espandongado”.
É impressionante o domínio que o autor tem do ponto de vista infantil em histórias que não cabem apenas na classificação infanto-juvenil.  Segundo observou certa vez o amigo pessoal e crítico José Fernandes, em palestra na Academia Goiana de Letras, o recurso a dois narradores amplia a perspectiva: o olhar da criança delineia o conteúdo fantástico da realidade e o de um adulto, a face absurda do mundo.
 
José J. Veiga é esse universo de talentos, aptidões, surpresas e descobertas que, por mais que as reconheçamos e renovamos, jamais faremos jus à sua importância para nossa cultura. De toda forma, sempre teremos motivos de sobra para mergulhar nesse mundo mágico que ele nos legou, para sempre memorável.
 

*Marconi Perillo é governador de Goiás
 
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por Marconi Perillo

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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