Logo

Direito ao esquecimento

03.11.2016 - 16:05:04
WhatsAppFacebookLinkedInX
Imagine um cidadão octogenário, hoje homem correto e probo, mas com um passado vergonhoso, o qual quer mantê-lo esquecido e apagado. Esta pessoa tem o direito de manter apagado este passado e impedir que a mídia, tais como, páginas na internet, jornais, revistas, sites de busca ou qualquer outro meio, divulguem o seu “negro passado”?
 
A resposta é encontrada no “direito ao esquecimento”, alcunha que o mundo jurídico dá ao direito de impedir a divulgação de atos pretéritos. O Supremo Tribunal Federal vai definir em breve o alcance deste direito, quando do julgamento do caso “Irmãos Curi versus Rede Globo”. 
 
A emissora carioca, nos anos 90, em seu Programa “Linha Direta” produziu e divulgou um episódio sobre o “Caso Aída Curi”, jovem que, nos anos 50, foi tragicamente estuprada, assassinada e jogada do alto de um prédio em Copacabana, no Rio de Janeiro, crime este nunca solucionado. 
 
Os irmãos de Aida Curi, indignados com o reavivar deste terrível acontecimento ajuizaram ação com pedido de indenização em face da emissora de TV, que teria explorado comercialmente a tragédia, sem que isto tivesse fins informativos.
 
Além deste caso, o Brasil já teve o famoso caso Xuxa versus Google, em que a “rainha dos baixinhos” pretendia tirar de circulação fotos e vídeos de seu passado como modelo. Neste caso o Superior Tribunal de Justiça entendeu que “não se pode, sob pretexto de dificultar a propagação de conteúdo ilícito ou ofensivo na ‘web’, reprimir o direito da coletividade à informação”.
 
No caso Irmãos Curi versus Rede Globo o Ministério Público Federal defendeu que o direito ao esquecimento, ainda não regulamentado no Brasil, não pode “limitar o direito fundamental à liberdade de expressão por censura ou exigência de autorização prévia”. Diz ainda que não é cabível indenização pela simples lembrança de fatos pretéritos.
 
Enfim, agora a Suprema Corte brasileira está instada a julgar definitivamente o “direito ao esquecimento”. Por certo fará ponderações deste com o direito à informação e à inviolabilidade da intimidade, vida privada, honra e imagem. Mas, ao fim e ao cabo, espera-se que as informações tanto da família Curi, Xuxa ou qualquer outra pessoa, por mais doídas e terríveis que sejam, fiquem todas à disposição da sociedade para a análise e julgamento da história. O “direito à lembrança” deve prevalecer ao “direito ao esquecimento”, pois é necessário lembrar para não repetir.
 

*Marcos César Gonçalves de Oliveira é advogado e Conselheiro Seccional da OAB/GO, presidente do IGDC – Instituto Goiano de Direito Constitucional e professor de Direito Administrativo e Constitucional da PUC/GO.

 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Marcos César Gonçalves

*

Postagens Relacionadas
José Israel
28.02.2026
Canetas emagrecedoras e pancreatite

O debate em torno das chamadas canetas emagrecedoras ganhou um novo e relevante capítulo com a divulgação, por parte da Anvisa, de dados sobre casos suspeitos de pancreatite e óbitos potencialmente relacionados ao uso desses medicamentos no Brasil. Embora os números ainda não permitam conclusões definitivas, eles desempenham um papel crucial ao acender um alerta […]

Mara Pessoni
28.02.2026
É possível solicitar um visto para os EUA apenas para assistir a um jogo do Brasil na Copa do Mundo?

É perfeitamente possível solicitar o visto americano para assistir a apenas um jogo da Copa do Mundo de 2026. Na verdade, grandes eventos esportivos são motivos comuns e legítimos para viagens de turismo. Como você já atua na área de imigração, sabe que o desafio não é a justificativa em si, mas a demonstração de […]

Roberta Muniz Elias
27.02.2026
Infância Sem Atalhos: Proteção Total

Diante da ampla repercussão pública nos últimos dias sobre o julgamento no TJ/MG, a proteção da dignidade sexual de crianças e adolescentes voltou a ocupar o centro do debate. Decisões judiciais que, de forma equivocada, tentaram relativizar a aplicação do art. 217-A do Código Penal – dispositivo que tipifica o estupro de vulnerável – suscitaram […]

Décio Gazzoni e Antônio Buainain
25.02.2026
O papel do engenheiro agrônomo na realidade contemporânea

O Acordo entre o Mercosul e a União Europeia significa um marco histórico nas trocas comerciais no mundo, pela amplitude de países, população e valores financeiros (PIB e trocas comerciais) envolvidos. É um exemplo acabado da realidade comercial contemporânea. Do ponto de vista da União Europeia, as vantagens apontam especialmente para uma abertura de mercado […]

Leonardo Ribeiro
24.02.2026
Quaresma: rumo ao deserto para escutar e viver

Com a graça de Deus iniciamos, unidos com a Igreja, o Tempo da Quaresma. Como todos os anos, neste período de quarenta dias, somos convidados a mergulhar com intensidade e coração aberto neste tempo propício de revisão de vida e conversão pessoal. A própria Liturgia da Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, […]

Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]