Nádia Junqueira
A contra-gosto dos cineastas e contrariando muita gente que não concorda com toda atenção e verba destinados à programação musical do Fica, os shows, mais uma vez, foram grande atração. Apresentações nacionais e regionais atraíram grande público, que saiu satisfeito do Festival. Os tão-esperados Maria Rita, Manu Chao e Rita Lee reuniram em torno de 30 mil pessoas, em cada noite. Os artistas goianos também não deixaram por menos e encheram a platéia tanto do Palácio Conde dos Arcos como no Palco Beira-Rio.
Diversidade e novidade foram as grandes marcas dessa programação. A começar pelo primeiro show internacional de um Festival também internacional: Manu Chao. Ativista político, o cantor franco-espanhol queria fazer o show no Festival e isso, sem dúvidas, influenciou na energia de seu show. Quase brasileiro, namora uma baiana, tem um filho carioca, queria conhecer Goiás e se interessa por causas ambientais.
O cantor chegou ainda na quarta-feira à noite, participou de oficinas, tomou cerveja pelas ruas e assistiu aos shows. “Obrigado Goiás, pelo carinho, pela receptividade”. Foi o que se ouviu mais de três vezes no show que ultrapassou tempo previsto, com direito a um longo bis. A vivência que Manu Chao teve nesses dias que antecederam seu show foi expressa ao chamar o Mc Dyskreto, goiano do pé rachado, para dividir palco em seu show. Foi o tipo de escolha de atração certa para um sábado à noite de FICA: Set list de clássicos, um ritmo que não deixou ninguém parado com seus músicos puxando coro do mar de gente.
Todo gosto
Rita Lee é um nome que, quando pronunciado, dificilmente se ouve uma reclamação. Diante de uma programação cheia de rock (foram quatro shows de bandas goianas), nada mais coerente que um encerramento com a diva do ritmo no Brasil. O mesmo se diz para Maria Rita, representando o samba e a MPB. Um show para agradar quem foi esperando ver interpretações de seus dois primeiros álbuns ou para quem queria sambar músicas de seu terceiro trabalho. Com identidade musical definida e abusando da presença de palco, Maria Rita deixou seu recado.
Kleuber Garcez, músico e integrante da banda “Pó de Ser”, aproveitou o FICA desde a sexta e acompanhou toda programação musical. Ele elogia a trilogia que costurou a programação tanto nacional, quanto regional: samba, MPB e rock. Renato Rodrigues, também músico integrante da banda “Black Drawing Chalks”, participou das últimas quatro edições do festival e acredita que essa teve a melhor programação musical. “Muito diversificada e com qualidade. E o melhor de tudo é que quem tocou ano passado, não pode tocar nesse, o que dá mais qualidade ainda e renova o festival.” Além disso, pela primeira vez, dois grupos da Cidade de Goiás se apresentaram.
A diversidade a que se referem Kleuber e Renato foi expressa, por exemplo, com a presença de Ivo Mamona e Dyskreto, do hip hop, passando pelo samba de Kamila Faustino, MPB de Larissa Moura, instrumental de Ricardo Leão, blues de Abluesados e rock de Hellbenders. Foram 17 grupos goianos representando a cena musical atual, sendo que a maioria nunca tinha tocado no festival. É o caso de Gloom, banda de rock formada por molecada que abriu show do Manu Chao no palco Beira Rio. “Não sei nem o que dizer”, repetia a vocalista Niela, expressando essa novidade de ocupar um espaço como o palco principal.
Curadoria
A seleção de bandas para tocar no Fica sempre é motivo de reclamações entre os artistas goianos. A curadoria é questionada e a avaliação, por alguns, é considerada política e não artística. Buscando mudar essa imagem, a organização do Festival, esse ano, optou por uma curadoria que tivesse dois membros de Goiás e três de fora. Carlos Eduardo Miranda (jurado do “Qual é seu talento?”), José Flávio Junior (Revista Bravo), Talles Lopes (Presidente da Abrafin), Fernando Perillo e Luis Augusto (músicos goianos) selecionaram 17 de 216 artistas que se inscreveram.
Kleuber, apesar de admitir a diversidade e ter gostado da programação, acredita que sai um grupo e entra outro e que foi uma escolha política. Já Renato Rodrigues afirma que a competência da curadoria era inquestionável. “Pude ver praticamente todos os shows e, para mim, todos mereciam estar ali. A curadoria tinha pessoas como Carlos Miranda e Zé Flávio, era impossível dar errado”, diz o guitarrista.