No ano de 1994 o historiador e medievalista francês, Jean-Claude Schmitt, concluía os originais de um livro que no Brasil seria traduzido e publicado em 1999. A tradução brasileira coube a Maria Lucia Machado. A publicação ocorreu sob os auspícios da Editora Companhia das Letras. Com o título de “Os Vivos e Os Mortos na Sociedade Medieval”, a obra se divide em nove capítulos, além da introdução e da conclusão. O trabalho de Jean-Claude Schmitt apresenta e analisa minucioso relato documental sobre a aparição dos mortos, os fantasmas, que perpassa a linha do tempo desde a antiguidade até o período contemporâneo.
A documentação de Schmitt contempla, na antiguidade clássica, narrativas literárias como as de Homero, que no Canto 23 da “Ilíada” apresenta em seus versos finais a alma defunta de Pátroclo, cuja amizade com o guerreiro semideus, Aquiles, pôde suscitar interpretações diversas acerca de sua natureza possivelmente homoafetiva, rogando ao amigo que realizasse as exéquias devidas aos seus despojos para que ele pudesse adentrar a mansão dos mortos, o Hades, uma vez que a não realização dos ritos apropriados fazia com que os demais espíritos não o aceitassem no ambiente póstumo, deixando-o numa condição límbica de sofrimento.
Conforme a farta documentação coligida por Schmitt, o acontecimento fantasmagórico envolvendo os amigos do épico homérico se reproduziu fartamente em diversas nuanças e formatações durante grande parte da Idade Média, tanto a Alta quanto a Baixa. Do conjunto expositivo e analítico de Schmitt ressalta que não somente os ritos inapropriados causavam o retorno do fantasma dos mortos, mas também questões pendentes de vingança. Um defunto ressentido com seu assassinato voltava do além e exigia que seu verdugo pagasse pelo crime cometido.
Em literatura, os múltiplos relatos presentes em “Os Vivos e Os Mortos na Sociedade Medieval” encontram eco, ainda, em “Hamlet: A Tragédia do Príncipe da Dinamarca”, de William Shakespeare. A peça que se ambienta no início da Modernidade tem início com a aparição de Hamlet-pai, que fora assassinado por seu irmão, Cláudio, que intentava usurpar-lhe o trono. O espírito exige do filho homônimo que vingue seu assassino por envenenamento. Jean-Claude Schmitt menciona em seu estudo a comunhão constante das almas defuntas com os problemas de estado, o que foi captado pela sensibilidade literária de Shakespeare.
Na conclusão de sua obra histórica, Schmitt registra as seguintes palavras: “O que é feito dos fantasmas hoje? Contra a ideia tranquilizadora de um progresso contínuo do racionalismo que se beneficia da perda de audiência das religiões tradicionais e, ao inverso, do desenvolvimento da ciência e da técnica modernas, devemos decidir-nos a constatar a voga não menos evidente das pesquisas de parapsicologia ou de metapsicologia, do espiritismo e da vidência”.
Mais adiante, também na conclusão, o autor reitera seu ponto de vista sobre o problema dos mortos nos dias atuais com estas curiosas palavras: “O espiritismo contemporâneo, uma espécie de nova religião secularizada, poderia satisfazer uma ‘necessidade de crer’ que já não consegue exprimir-se nos ritos e nas fórmulas de antanho. Contudo, fatores mais positivos devem também ser invocados. O esforço recente das técnicas de comunicação nos tornou familiar a abolição de toda distância entre o aqui e o alhures e a confusão dos limites entre o visível e o invisível. A mídia, que se tornou uma parte essencial de nossa vida cotidiana, não é, até no nome, da família dos médiuns?”
AS PALAVRAS, AS COISAS E A CULTURA
O pensador francês, Michel Foucault, em sua obra “As Palavras e As Coisas” disserta acerca de complexidades da epistemologia (teoria do conhecimento) no âmbito da cultura ocidental como um todo. Sem descer às profundas camadas estratificadas no conhecimento, que o autor problematiza como poucos, pode-se servir do título de sua obra para trazer à tona uma questão mais simples ligada à designação de um termo apresentado por Schmitt em seu trabalho, quando menciona a palavra “espiritismo”.
A doutrina sistematizada por Allan Kardec, o Espiritismo, nasce de um conjunto de observações em torno de uma série de fenômenos fantasmais que inundou a Europa em meados do século 19 e que guardam uma íntima relação com os relatos apresentados em “Os Vivos e os Mortos na Sociedade Medieval”, constituindo-se praticamente um desdobramento deles no tempo e no espaço. À época em que Kardec começou a estudar essa vasta expressão fenomênica paranormal, o seu conjunto de manifestações era conhecido sob a rubrica geral de “espiritualismo”.
No intercâmbio com os espíritos, mediante questionários apresentados a eles sobre as mais diversas questões que sempre interessaram ao pensamento humano, Allan Kardec redigiu e publicou em 18 de abril de 1857, portanto há exatos 165 anos, a obra intitulada “O Livro dos Espíritos”. Na sua introdução registra o autor que para coisas novas seriam necessárias palavras novas. Os termos “espiritualista” e “espiritualismo” já possuíam significados bem definidos. Mas um corpo de doutrina específico que daí redundasse exigiria um novo termo para que as ambiguidades fossem evitadas.
Assim, assevera Kardec: “Em vez das palavras espiritual, espiritualismo, empregamos, para indicar a crença a que vimos de referir-nos, os termos espírita e espiritismo, cuja forma lembra a origem e o sentido radical e que, por isso mesmo, apresentam a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, deixando ao vocábulo espiritualismo a acepção que lhe é própria”. Com essa definição, Allan Kardec apresenta a certidão de nascimento do espiritismo no tempo e no espaço.
Na conclusão de Jean-Claude Schmitt não fica claro se ele realiza a distinção necessária entre espiritualismo e espiritismo. A julgar pela sua envergadura intelectual como emérito medievalista, pode-se supor que sim; no entanto, não resta dúvida quanto a sua perspicácia em relação a esse importante dado cultural resultante da conexão entre as palavras e as coisas, conforme se pode deduzir da expressão metafórica foulcaultiana.
Discípulo de outro importante medievalista, Jacques LeGoff, Jean-Claude Schmitt não hesita em registrar a historicidade do espiritismo em face do problema da suposta volta dos mortos à presença dos vivos. Na elaboração de seu clássico “O Nascimento do Purgatório”, LeGoff apresenta também uma série documental sobre a aparição e intercâmbio ostensivo de fantasmas e como esse importante dado cultural foi essencial na elaboração do conceito de purgatório por parte da igreja romana.
No entanto, Jacques LeGoff sequer menciona o espiritismo em suas abordagens, quando essa doutrina se mostra fundamental na compreensão das fronteiras do imaginário entre o conceito católico e as abordagens do espiritualismo e do espiritismo para a candente problemática de uma continuidade ou descontinuidade existencial após a morte corporal, conforme se depreende das palavras de Schmitt.