Atenciosa e sempre preocupada com todos, a minha mãe, Maria Luiza Naves, carinhosamente conhecida como dona Nenzinha, completou 100 anos de vida no dia 25 deste mês de julho e continua comemorando a data, à sua maneira. Agora, entrega a cada núcleo familiar formado pelos filhos e netos unidades do famoso “Alquinho da Vovó Nenzinha”, comemorativo desse festejado centenário.
Trata-se de um medicamento fitoterápico que produz uma vez por ano, na quinta-feira da Semana das Dores, dia de Nossa Senhora das Dores, que antecede a Semana Santa, a partir de vegetais e plantas medicinais: álcool de cereais, glicerina, cânfora, extrato de própolis, arnica, miloma, penicilina, erva Santa Maria e uma pitada de amor. Lição aprendida com sua avó paterna, Maria Luiza de Jesus, e quem o conhece considera milagroso, por curar machucados, dor de cabeça, arranhões, quedas e outros problemas.
Já completados 50 anos de sua produção, a fórmula, guardada a sete chaves, neste ano foi repassada ao neto mais próximo e que a trata com muito carinho, o psicólogo Rodrigo Naves Amorim, que criou uma etiqueta de identificação e novas embalagens.
Quem testemunhou recentemente os efeitos milagrosos do remédio foi o filho mais velho, José Osório Naves, 82 anos, que sofreu uma queda em escada na sua casa, em Brasília, dias atrás, quando quebrou quatro costelas. De imediato, passou o álcool, que aliviou a dor naqueles momentos tensos do acidente doméstico, deixando-o mais tranquilo até a chegada do socorro médico, prontamente providenciado pela filha, a dra. Luciana Naves.
O gosto pelas plantas, desde criança
Nenzinha morava em Trindade, GO, sua cidade natal, e estava no enorme quintal de sua casa, já uma constante naquela vida rotineira, sem muitas alternativas de brinquedos e só contando com o extenso espaço dos fundos da residência e suas plantas amigas. Colhia frutos quando viu uma plantinha bonita, que chamou sua atenção, resolveu colher e levar para sua avó, que cuidava pacientemente da nora, Maria de Araújo Oliveira e Silva, uma bonita morena de olhos verdes, que tinha o apelido de Preta. Nenzinha entregou a plantinha que havia colhido e sugeriu a Vó Iza, como todos a tratavam, que fizesse chá para sua mãe, que estava grávida do quarto filho e naqueles dias, acamada, com um forte resfriado, cansada e com a respiração ofegante.
Dias depois, Preta não suportou aquele sofrimento e faleceu no parto da filha, que também morreu, ao nascer.
Não foi um simples resfriado, como depois todos ficaram sabendo, mas a famosa gripe espanhola, já em sua segunda onda no Brasil, pandemia que vitimou milhões de pessoas por esse mundo afora.
Ontem ela quis saber a sua idade real naquele momento, pois era muito pequena e as imagens ainda estavam fortes em sua memória.
Voltei para casa e fui consultar meus arquivos e minhas anotações, sempre interessado na história da família, para dirimir essa dúvida dela, e encontrei a certidão de óbito da vovó Preta.
Maria Luiza Neta, nome de batismo de minha mãe, nasceu no dia 25 de julho de 1921, e a mãe dela, Maria de Araújo Oliveira e Silva, faleceu no dia 14 de agosto de 1923. Tinha, então, dois anos e 20 dias.
*Jales Naves é jornalista e escritor, presidiu a Associação Goiana de Imprensa (AGI) em dois mandatos consecutivos (1985-1991) e ocupa as cadeiras nº 30 da Academia de Letras e Artes de Caldas Novas e de nº 34 do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás.