Logo

Duas imagens e um país inacabado

19.08.2025 - 11:19:25
WhatsAppFacebookLinkedInX

Nas últimas três edições da revista Piauí, o sociólogo José Henrique Bortoluci publicou uma série de textos intitulada “Geração Democracia”, em que entrevista e faz reflexões a partir de personagens brasileiros nascidos em meados dos anos 1980 — isto é, pessoas que só conheceram o país democrático da Nova República. Passados 40 anos da eleição de Tancredo Neves e da posse de José Sarney, o que essas vidas e olhares nos dizem sobre os caminhos do Brasil e de nossa combalida democracia?
 
Bortoluci tem uma capacidade rara para conectar o pessoal e o cotidiano ao fluxo da história, e para descrever sem julgar. Em seu livro O que é meu, conta de forma ao mesmo tempo generosa e contida a história de seu pai — seu Didi —, um homem simples, caminhoneiro do interior de São Paulo, que foi parte da transformação e integração do Brasil, trabalhando em obras como a Transamazônica. Da fala humilde e simples de Didi, emerge todo um país moldado a partir de suas violentas e injustas fronteiras econômicas.
 
Das conversas e reflexões com a geração dos anos 1980, não resulta nenhuma tese — o que é muito bom —, mas as vidas dessas pessoas e a maneira como se encaixam em nossa história e sociedade fazem evidentemente pensar. Deixam, é claro, um resultado um pouco amargo e de pouca esperança. Onde erramos?
 
Não sou dos anos 1980. Minha geração é a anterior à de Bortoluci e de seus personagens. Nasci em meados da década de 1970. Filho de pais politizados, e já por volta dos 10 anos à época da transição democrática, vivi com encanto todo o processo. Não sei exatamente por que, entretanto, desde o início, os textos de Bortoluci me fizeram lembrar de uma foto que antecede esse momento e conta outra história. Tentei achá-la e não a encontrei, mas coincidentemente me deparei com a que abre este texto. Deve ser 1985 ou 1986, estou no jardim da casa onde morávamos em Goiânia, vestindo uma camiseta da campanha “Diretas já” ao lado do Kiko, nosso doberman, que também se conecta por vias curiosas à política — já explico a razão.
 
A foto que não encontrei deve datar de uns seis anos antes. Nela, eu e outros meninos posamos sobre a mesa da varanda de uma casa cercada de vegetação. Esses amigos são Pablo, Luciano e Lucas. Não tenho certeza se João, meu irmão, também está na foto — talvez sim. Estamos sorridentes, provavelmente em meio a uma brincadeira pelo vasto quintal daquela casa, no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro.
 
Imagino que essa foto tenha me vindo à mente, quando comecei a ler os textos do Bortoluci, pela imensa sombra que não mostra — e o fato de que não a mostre talvez fale muito sobre o que somos.
 
Lucas, um dos amigos na foto — provavelmente então também por volta dos seis anos —, é Lucas Guagnini, filho de Luís Rodolfo Guagnini, jornalista argentino que recém desaparecera — provavelmente dois anos antes dessa foto — nos porões da ditadura de seu país. 
 
Com a ajuda de amigos jornalistas, especialmente Newton Carlos, sua mãe, Monica, conseguiu se refugiar com o filho no Brasil. Os dois moraram por um tempo em nossa casa, no mesmo bairro de Santa Teresa, antes de se instalarem nessa casa da foto, no terreno onde moravam o jornalista e psicanalista Roberto Melo e a escritora Eloí Calage, pais do Pablo e do Luciano, que também aparecem na imagem.
 
Eu obviamente só vim a ter consciência de todo a sombra por trás dessas imagens muitos anos depois. Luís permanece como um dos estimados 30 mil desaparecidos e mortos pela ditadura argentina. Monica e Lucas conseguiram escapar entrando clandestinamente no Brasil.
 
No Brasil, claro, vivíamos também sob uma ditadura, mas já em seus estertores e em processo de abertura. Nada disso, entretanto, lançou qualquer sombra que eu sentisse à época sobre a minha infância, que foi muito protegida.
 
Há, evidentemente, uma ponte entre essa foto e a de 1985, e ela passa não apenas, mas também pelo cachorro. Kiko foi um bicho herdado do casal Marco Antônio e Terezinha Coelho. Do diretório do Partido Comunista Brasileiro, Marco foi político, jornalista e era deputado federal pelo antigo estado da Guanabara quando veio o golpe de 1964. Foi cassado. Em 1975, foi preso pelo regime e passou quatro anos encarcerado, período em que foi barbaramente torturado, o que o deixou com sequelas pelo resto da vida. Depois de solto, mudou-se com a família para Goiânia, onde, a convite do jornalista Batista Custódio, passou a trabalhar no jornal Diário da Manhã. 
 
No início da década de 1980, meu pai julgava-o morto, pois não tivera mais notícias suas. De férias com a família da minha mãe, na cidade de Alto Araguaia (MT), comprou o Diário da Manhã na banca e topou com o nome do amigo no expediente. Fez contato por telefone e recebeu o convite para escrever para o jornal. Desse trabalho inicial, viria o convite do mesmo Batista para que assumisse a direção de redação do Diário da Manhã, o que nos trouxe para Goiás.
 
Cerca de dois anos depois, Brasil em redemocratização, Marco Antônio e Teresinha decidiram voltar para São Paulo, e nós ficamos com o Kiko, que era um doberman ridiculamente manso. Do Marco Antônio, me lembro sempre que alguém acende um cachimbo, e me recordo também sempre de suas mãos trêmulas — herança dos porões — ao acenderem o seu.
 
Portanto, em uma e outra foto, os fios e a sombra do autoritarismo estão a nosso redor — e, ainda assim, dias luminosos de infância.

A cédula do meu voto de faz de conta em 1982 (Foto: arquivo pessoal)

Acho que minha apresentação à política se deu em 1982. Depois de muitos anos de governadores biônicos, ainda sob a ditadura do General Figueiredo, cujo neto golpista hoje faz lobby contra o Brasil nos Estados Unidos, houve eleições para os executivos estaduais e também para renovação do Congresso Nacional, das assembleias legislativas e das câmaras municipais. Despencamos de ônibus para o Rio de Janeiro — minha mãe, meu irmão e eu – para que ela pudesse votar. Do dia da eleição, guardei uma cédula  — uma amiga da minha mãe era mesária –, que preenchi com meus votos, obviamente os mesmos da minha mãe: Leonel Brizola para governador — com Darcy Ribeiro de vice — Saturnino Braga, senador, Mário Juruna, deputado federal. 
 
Não me lembro se fui ao grande comício, em abril de 1984, que lotou o centro de Goiânia com centenas de milhares de pessoas em meio à Campanha Diretas Já. Lutava-se então pela aprovação da emenda constitucional apresentada pelo senador mato-grossense Dante de Oliveira, determinando a realização de eleições diretas para presidente. Mas me recordo de acompanhar tudo com entusiasmo, como lembro da alegria com a eleição indireta de Tancredo e da tristeza com seu adoecimento e morte.
 
Assim, por mais que tenha nascido durante a Ditadura e que sua sombra tenha estado sempre muito próxima, minha infância foi muito mais marcada emocionalmente pelas cores e pelo entusiasmo com a democracia. Por isso, é especialmente frustrante constatar que ela, em larga medida, não tenha dado conta, nesses 40 anos, de entregar o país com que sonhamos, e que se encontre tão abalada.
 
Que o neto do General Figueiredo esteja hoje nos Estados Unidos dando consequências à sua herança golpista e autoritária e conspirando contra o país e a favor de um dos piores seres humanos que o Brasil já produziu — Jair Bolsonaro — dá medida do quanto estamos presos nesse novelo sombrio de um passado mal resolvido. 
 
Fico com a imagem das duas fotografias. A primeira, atravessada pela ausência e pela violência que não mostra. A segunda, ensolarada, com a ingenuidade de uma camiseta “Diretas Já” e de um cachorro dócil herdado de um sobrevivente. Entre elas, está a trajetória do Brasil: uma democracia sempre incompleta, sempre cercada de sombras, mas ainda teimosamente viva, apesar de tudo.
 
 
 
 
 
 

 

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

Postagens Relacionadas
Joias do Centro
27.02.2026
Uma árvore, muitas camadas de memória na Rua 20

Carolina Pessoni Goiânia – Há árvores que oferecem sombra. Outras oferecem memória. Quem passa pela Rua 20 talvez veja apenas mais uma delas, de grande porte, em frente ao antigo casarão que abrigou a primeira moradia de Pedro Ludovico e, mais tarde, a Faculdade de Direito que deu origem à Universidade Federal de Goiás (UFG). […]

Meia Palavra
27.02.2026
‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ leva humor, aventura e bondade para Westeros

Se tem um universo que parece ter gerado uma terrível ressaca coletiva é o de Game of Thrones. Após o final patético da série e duas temporadas ocas de A Casa do Dragão, parecia que qualquer tentativa de retomar esse mundo no streaming não teria a menor chance de reconquistar a boa vontade da audiência. […]

Noite e Dia
27.02.2026
Evento na sede da OCB/GO marca lançamento do maior congresso de cooperativas de crédito do mundo; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Sistema OCB/GO lançou, nesta quinta-feira (26/2), o 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred), maior evento do cooperativismo financeiro no mundo. A apresentação foi realizada no edifício Goiás Cooperativo, em Goiânia, com a presença do presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira; do presidente da Confederação Brasileira das Cooperativas […]

Noite e Dia
25.02.2026
Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás reúne autoridades e personalidades em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – A entrega das premiações da edição 2026 do Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás foi realizada nesta segunda-feira (23/2). Promovido pela Contato Comunicação, a 16ª edição foi realizada na Câmara de Goiânia, no Auditório Jaime Câmara. O reconhecimento contempla os nomes mais citados por jornalistas e formadores de opinião do […]

Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]