Goiânia – Na manhã do último domingo, estava esperando minha mulher e filha saírem do supermercado. Fiquei na porta do estabelecimento comercial, pois estávamos com nosso cachorro, o Xico. Enquanto as garotas compravam os itens que faltavam para nosso almoço, eu acompanhava desinteressadamente um jogo entre Brasil e Suíça no futebol de areia que passava em uma televisão que ali estava. O narrador interrompeu a transmissão esportiva para dar mais informações sobre a tragédia da boate Kiss em Santa Maria (RS). Abalado pela tristeza dos fatos, pensei na hora: “e se pegasse fogo agora? O que eu faria?”.
O supermercado onde minha família estava é de médio porte. Estava lotado. Seus corredores são estreitos. A mobilidade interna com os carrinhos de compra sempre é complicada. Se o desespero coletivo que bate na hora de um incêndio baixasse ali, não tenho dúvidas de que muita gente morreria. Fui além do meu primeiro pensamento. Refleti: “de todos os locais que frequento, qual está preparado para uma fuga de emergência em caso de incêndio?”. Até agora não consegui responder a pergunta com convicção.
Transfiro a você, caro leitor, o mesmo questionamento: dos ambientes que você usualmente vai, qual está efetivamente pronto para uma situação de caos real como é um incêndio? Pense em sua casa, trabalho, academia, bar preferido, restaurante habitual, igreja, escola, universidade… A real é que corremos riscos seguidos de passar por uma situação terrível como a do interior gaúcho e nem nos atentamos a isso.
Agora pense você, comerciante dedicado e responsável, no sofrimento que é conseguir alvará de qualquer coisa em qualquer repartição pública brasileira. Parece que tudo foi feito no intuito de que você permaneça irregular e, caso algum imprevisto aconteça, seja culpado pela situação. É simplesmente impossível dar conta de tudo que é solicitado. Digo mais: de todos prédios públicos, chuto que nem a metade cumpre todos os requisitos necessários para conseguir todos os alvarás. Somos um País realmente doido: nem o Estado cumpre o que o próprio Estado determina como mínimo.
Nada vai consolar as famílias que perderam seus parentes. Mas punir os culpados ao menos mostra que o Brasil não é uma republiqueta. Banda, proprietários, instituições públicas responsáveis… Enfim, cada um que tiver dívida terá que pagar sua parcela. E que a tristeza sirva de exemplo para que novos casos como esse sejam impedidos no restante do País.
Já que temos o péssimo hábito de só colocar o cadeado depois que o ladrão já levou tudo, que esse seja o momento.