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Em nossas mãos, a responsabilidade pelas tragédias

27.01.2013 - 14:13:58
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Goiânia – Tragédias acontecem e todo mundo está sujeito a isso. Mas nunca a responsabilidade foge das nossas mãos. Não para se evitar a tragédia, mas para amenizá-la. Saber fazer as escolhas certas diante de decisões importantes. Não seria esse o desafio da vida? Por que não, o desafio para se amenizar as tragédias?

Hoje eu vi minha mãe me ligando depois das cinco horas, porque não havia chegado em casa e se desesperando com meu celular desligado. Vi meus pais, então, procurando por notícias minhas na fila do Ginásio em Santa Maria. Vi meus amigos chorando e pensando que só não eram eles porque ontem não estavam afim de sair.

Senti o desespero da fumaça me tirando a consciência. A pressão pela luta por uma saída. O desespero em ser pisoteada. Pensei em câmaras de gás; quando a morte tira o ar, a consciência sem dar tempo de se dar conta do que está acontecendo.

Eu me vi em todas essas situações porque eu me vi em muitas casas noturnas em Goiânia que, assim como a Kiss, em Santa Maria, não têm estrutura para dar conta de um incêndio. Porque nossas mesmas casas têm os mesmos seguranças com as mesmas instruções para não deixar sair em hipótese alguma: nem morto.

Essas tragédias chocam porque poderia ser qualquer um de nós. Poderia ter sido eu a pegar aquele avião. A entrar naquele prédio. A cruzar aquela rua. A tomar aquele ônibus. A cruzar aquela rodovia. Viver é estar sujeito a todas as tragédias. Mas o que temos feito para amenizá-las?

No dia 1º de janeiro, meu primeiro trabalho do ano foi cobrir um incêndio de uma concessionária. Nenhuma vítima. Mas só de estar perto do fogo e assistir àquela fumaça, senti calafrios. Poucos dias depois, fui entrevistar um bombeiro para que pudesse dar orientações de como se evitar incêndios, já que eram três em menos de 15 dias em janeiro.

Perguntei de que forma os donos dos estabelecimentos eram autuados. Qual era o valor da multa. Ele nem quis mesmo me informar o valor, de tão irrisório que é. Completou dizendo que a equipe do corpo de bombeiros é muito pequena para dar conta de fiscalização. Eles vêm, de fato, quando o evitável já produz fumaça.

Supermercados, lojas, escritórios, clínicas, escolas, boates e por onde mais estivermos. Todos esses locais são “Kiss” em potencial. Todos estamos sujeitos a tragédias como essa em qualquer local ou ocasião. Antes de se viver temeroso, evitando a morte, mais prudente é viver consciente de sua ética, buscando amenizar tragédias.

Não é preciso muita coisa para um fogo se alastrar , tomar conta de um local e fazer dezenas vítimas. Mas para se evitar algo dessa magnitude, o corpo de bombeiros tem uma cartilha para cada espaço e basta chamá-los para que eles orientem.

O problema é que há gastos. E, com isso, os donos dos estabelecimentos parecem estar muito preocupados, a ponto de não permitir saída de ninguém sem pagar a conta. A tragédia é inevitável. Mas poderia ter sido amenizada. O estabelecimento que poderia ter dispensado verbas para adequar o local e evitar incêndios de grande porte. O segurança que poderia ter colocado a vida acima de tudo e garantido um futuro mais longo a algumas dezenas de jovens. O corpo de bombeiros que deveria ter fiscalizado os espaços. O governo que deveria dar estrutura para os bombeiros realizarem fiscalização.

A possibilidade de se amenizar tragédias está nas mãos de cada um e não em fugir dos perigos eminentes. Podemos ser nós os responsáveis por tragédias, a não ser que saibamos bem deliberar e tomar as melhores decisões para que possamos amenizá-las. A culpa não é de quem saiu de casa. A culpa não é de quem gosta de ir em boates. Não é de quem se arrisca saindo à noite enfrentando os perigos e violências.

Eu gostaria muito que os pais desses jovens em nenhum momento se culpassem em ter permitido os filhos saírem ou os culpassem pela diversão, como diversos comentadores de site já o fizeram hoje.Poderia ter sido em qualquer lugar. E em qualquer lugar a tragédia pode ser amenizada. Que fatos tristes como o de hoje sirvam para se pensar o papel de cada um diante de uma possível tragédia.     

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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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