A Redação
Goiânia – O estudo “Quando o Diabetes Toca o Coração”, feito pelo EndoDebate em parceria com a Revista Saúde, mostrou que 80% dos pacientes com diabetes tipo 2 apresentam indícios de comprometimento cardiovascular e 52% deles já sentiram pelo menos dois destes sintomas: tontura, dores no peito e nas pernas, falta de ar e palpitações.
Outro dado alarmante: 64% dos diabéticos não seguem rigorosamente o tratamento e apenas 48% dos pacientes consideram a doença muito grave. Para a médica endocrinologista, Fernanda Braga, um dos motivos dessa falta de cuidado é pode ser justamente pelo atendimento médico.
“Acredito que falte empatia e acolhimento do médico ao lidar com o paciente com diabetes. Falta também informação. A primeira consulta é o momento para o médico ganhar o entendimento e a confiança do paciente e não simplesmente mandar ele parar de comer, caminhar e se virar para perder peso e usar o remédio. Não é só isso. Aderir a bons hábitos de vida faz parte do sucesso do tratamento, mas não exclui a necessidade de medicações específicas. Um paciente com diabetes tipo 1, por exemplo, não produz insulina, e por isso precisará sempre usá-la de maneira que imite um pâncreas ‘normal’ que produz”, afirma Fernanda.
De acordo com o estudo, essa percepção da médica se confirma. Apesar de 62% deles terem sidos diagnosticados há pelo menos cinco anos, 90% ainda sente falta de mais informações durante o tratamento. Em relação às doenças cardiovasculares, 60% das pessoas com diabetes tipo 2 avaliaram que o médico transmitiu informações insatisfatórias ou nem mencionou as questões relacionadas ao coração na última consulta de controle da doença.
O diabetes tem vários tipos, mas dois são mais conhecidos. O tipo 1 é uma condição autoimune, na qual o próprio corpo produz anticorpos que destroem as células localizadas no pâncreas, produtoras de insulina. Já o tipo 2 é a doença cujos fatores de risco são: influência genética (familiares com a doença), obesidade (principalmente com concentração de gordura na região da cintura), mulheres que tiveram diabetes gestacional, mulheres com síndrome de ovários policísticos ou uso de medicações como glicocorticoides e todas situações relacionadas ao que chamamos de resistência insulínica (há produção de insulina, mas ela tem dificuldade de cumprir sua função).
“A mudança no estilo de vida, comer melhor, vai melhorar a qualidade do tratamento, mas não necessariamente levar à cura podendo chegar, ao máximo, na remissão da doença. Independentemente do tipo, existem atualmente tratamentos excelentes. Temos medicações e tecnologias fantásticas para ajudar o paciente”, explica Fernanda.
Percepção de riscos e complicações ainda é limitada
“Um dos maiores problemas quando o médico não acessa o paciente é não conseguir fazer com que ele entenda a necessidade do acompanhamento frequente, seja a cada três ou seis meses. O paciente precisa entender a doença, que não é culpa dele e se ele fizer o básico desse acompanhamento e usar a medicação da forma correta, ele pode conviver muito bem com isso, sem jamais ter uma complicação”, explica a médica endocrinologista.
“O que mais vejo na pratica do dia a dia de consultório, e nos ambulatórios do SUS, é que o mal controle não se associa diretamente com as condições financeiras, mas sim com a constância no acompanhamento. É muito comum encontrar pacientes de classe socioeconômica elevada que são diagnosticados, começam a tomar uma medicação única e depois somem do médico ou vivem trocando de médico. Uns porque ficaram com medo da doença e entraram em negação e outros porque não entendem como funciona sua doença. Já atendi pacientes jovens, de 40 anos, com complicações como acometimento de nervos que levam a dor em um nível que dificulta até pisar no chão. Uma coisa absurda, horrorosa e totalmente desnecessária. Por isso reforço que o tratamento do diabetes precisa de empatia e muito conhecimento por parte do médico”, finaliza.
Para prevenir, muitos estudos já mostram que para os casos de “pré-diabetes” mudanças simples nos hábitos de vida, como seguir uma dieta saudável e praticar exercícios regulares, podem reduzir o risco de desenvolver a doença (tipo 2) em mais de 50%. E nem é preciso que o exercício seja uma prática esportiva ou academia. Caminhar por 45 minutos diários já é suficiente. Outro ponto importante são as políticas públicas para encorajar dietas saudáveis e a prática de exercícios físicos, sejam caminhadas leves, esportes, academias populares ou o uso de bicicletas.