Logo

Enem para quem?

01.11.2011 - 11:11:58
WhatsAppFacebookLinkedInX

As fraudes envolvendo o Enem não são necessariamente uma surpresa. Nem uma novidade, já que o vazamento das provas tem sido recorrente nas últimas edições do exame. O fato das irregularidades terem sido cometidas por instituições de ensino – uma escola particular tradicional de Fortaleza e outra com as mesmas características, em Belo Horizonte, foram apontadas como as responsáveis pelo uso indevido de questões aplicadas em anos anteriores – também não chega a causar espanto e é justamente neste ponto que gostaria de apoiar minha análise. O maior problema do Exame Nacional do Ensino Médio não está em sua concepção, nem nos seus objetivos e nem mesmo na logística que permeia o exame, envolvendo produção, impressão e distribuição das provas.

Concebido durante o governo FHC para, além de unificar o processo seletivo (vestibular), atuar como uma ferramenta de diagnóstico do Ensino Médio, de modo a identificar pontos positivos e negativos desta etapa específica do ensino formal, sinalizando a necessidade de criação de políticas públicas voltadas para o segmento ou reforçando medidas pertinentes, o Enem acabou sendo reduzido a um mero processo de ranqueamento das escolas. Essa distorção é muito mais perniciosa para o processo avaliatório do que os constantes vazamentos de conteúdo das provas que, segundo a opinião pública, vem contribuindo para a perda de credibilidade do exame e suscita, ano após ano, a discussão acerca da eficácia da prova e da importância da manutenção da mesma.

De fato, se o Enem continuar a ser visto apenas como um instrumento de classificação de escolas, sem levar em consideração as diferenças existentes entre instituições de ensino públicas e particulares, que vão desde as estruturas físicas das escolas, os recursos destinados a elas, os salário pago aos professores e o nível cultural e social de seus alunos e, ainda, em uma escala mais abrangente, as diferenças entre escolas localizadas em grandes centros urbanos e aquelas situadas nas localidades mais longínquas de um país de dimensões continentais como o Brasil, sua eficácia será nula. Fora do contexto, as informações obtidas a partir do Enem, podem surtir o efeito contrário ao desejado, na medida em que leva a interpretações distorcidas da realidade, reforçando estigmas.

Mas o mais lamentável é que as próprias escolas se utilizam dos rankings criados pela imprensa para fazer autopropaganda, alardeando sua “boa colocação” nos processos avaliativos governamentais, sem que haja qualquer manifestação ou intervenção por parte do MEC. O cenário é revelador do raciocínio eficientista incorporado às reformas educacionais dos anos 1990 promovidas pelo governo FHC, que utilizou amplamente mecanismos de avaliação externa voltados para a educação. Vale lembrar que esses mecanismos foram estruturados a partir da perspectiva de organismos multilaterais, como o Banco Mundial e a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e foram adotados como indicador de qualidade.

Para educadores como Libâneo, o modelo do Enem – e dos demais processos de avaliação da educação que estão em curso – desconsidera questões de poder e de conflito no currículo e omite as implicações sociais e educacionais do rendimento escolar, ao deixar de questionar sobre o que e para que se avalia. Talvez seja o caso, sim, de rever a manutenção do Enem nos moldes em que se apresenta hoje. Mas essa avaliação deve ser pautada por parâmetros que extrapolam – e muito – o sistema de segurança que envolve a aplicação das provas.

Silvana Monteiro  é jornalista e mestre em educação pela UFG

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Silvana Monteiro

*

Postagens Relacionadas
José Israel
28.02.2026
Canetas emagrecedoras e pancreatite

O debate em torno das chamadas canetas emagrecedoras ganhou um novo e relevante capítulo com a divulgação, por parte da Anvisa, de dados sobre casos suspeitos de pancreatite e óbitos potencialmente relacionados ao uso desses medicamentos no Brasil. Embora os números ainda não permitam conclusões definitivas, eles desempenham um papel crucial ao acender um alerta […]

Mara Pessoni
28.02.2026
É possível solicitar um visto para os EUA apenas para assistir a um jogo do Brasil na Copa do Mundo?

É perfeitamente possível solicitar o visto americano para assistir a apenas um jogo da Copa do Mundo de 2026. Na verdade, grandes eventos esportivos são motivos comuns e legítimos para viagens de turismo. Como você já atua na área de imigração, sabe que o desafio não é a justificativa em si, mas a demonstração de […]

Roberta Muniz Elias
27.02.2026
Infância Sem Atalhos: Proteção Total

Diante da ampla repercussão pública nos últimos dias sobre o julgamento no TJ/MG, a proteção da dignidade sexual de crianças e adolescentes voltou a ocupar o centro do debate. Decisões judiciais que, de forma equivocada, tentaram relativizar a aplicação do art. 217-A do Código Penal – dispositivo que tipifica o estupro de vulnerável – suscitaram […]

Décio Gazzoni e Antônio Buainain
25.02.2026
O papel do engenheiro agrônomo na realidade contemporânea

O Acordo entre o Mercosul e a União Europeia significa um marco histórico nas trocas comerciais no mundo, pela amplitude de países, população e valores financeiros (PIB e trocas comerciais) envolvidos. É um exemplo acabado da realidade comercial contemporânea. Do ponto de vista da União Europeia, as vantagens apontam especialmente para uma abertura de mercado […]

Leonardo Ribeiro
24.02.2026
Quaresma: rumo ao deserto para escutar e viver

Com a graça de Deus iniciamos, unidos com a Igreja, o Tempo da Quaresma. Como todos os anos, neste período de quarenta dias, somos convidados a mergulhar com intensidade e coração aberto neste tempo propício de revisão de vida e conversão pessoal. A própria Liturgia da Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, […]

Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]