O ensino pressupõe uma organização prévia do que será transmitido. O professor, assim, escolhe, organiza e entrega o que tem a seu aluno que por sua vez acredita naquela verdade, sem normalmente verificá-la.
Antes não se verificava o visto em sala de aula por falta de recursos: o dito, extraído de poucas fontes, era normalmente dito só ali. Hoje, wikis à parte, não verificamos porque o hábito relacionado à “aquisição” de conhecimento, ainda está viciado nesse sistema hierárquico em que um ensina e vários “aprendem” .
Na verdade, não aprendem, repetem.
Tratando-se de um fenômeno que envolve interpretação, o que é aprendido raramente coincide com o que é ensinado. E é essa capacidade de interpretar que, melhorando ou piorando a informação, a transforma inevitavelmente.
Por isso, penso que seria sensato qualquer curso de graduação hoje em dia cuidar disso antes de mais nada. Porque o conteúdo em si está distribuido por aí, cada vez mais abundante: “minha biblioteca e meus professores são os meus amigos” e meu jornal é o twitter.
Em minhas leituras recentes sobre autoconhecimento e autodidatismo, encontrei duas palavras comuns que apontam de uma certa forma para o vencimento desse apego hierárquico. São elas “buscador” e “vivência”.
Dentro do tema espiritualidade (uso o termo aqui no sentido da exploração de nossas capacidades mais sutis), buscador é aquele que está no estágio pré-encontrado. Em outras palavras, alguém que intimamente já assentiu que existem realidades paralelas (e melhores) a essa dos jornais e, assim sendo, quer frequentá-las até poder permanecer lá.
Para se tornar um buscador, é necessário passar por diversos professores. Acreditar em muitos conteúdos até o momento em que se realiza que nada disso é suficiente para trazer o conforto existencial. Dessa forma, estuda-se tudo o que pode para voltar à estaca zero, mas dessa vez dono e senhor da própria ignorância.
Santiago, o mordomo, mostra que percebeu, em meio a milhares de papéis onde passou a vida inventariando a nobreza mundial do Congo à França: “minha atividade mental é contínua, imensa e insignificante”
No contexto web, “buscardor” é aquele mecanismo milagroso de nos leva rapidamente à informação que estamos pesquisando. Mais eficiente será o browser quanto mais clareza se tem em relação àquilo que se procura. Tal clareza deverá ser transformada em palavras-chave, que por sua vez derivam da própria questão que te move.
Ainda no vocabulário da espiritualidade, o buscador deixa de sê-lo quando entrega-se a um mestre. A partir daí ele não irá mais acreditar, mas vivenciar o conhecimento. E vivenciar não é um processo intelectual, mas vibracional. Através dele desistimos de “saber” para “sentir” o que dá lugar à manifestação da intuição.
Desse estágio para frente, professores não são mais úteis porque só poderiam “encher um recipiente que já está cheio” e “a erudição (ajuda, mas) não faz saber”.
O processo de ensino que despreza a intuição valoriza a neurose, porque é da natureza da intuição (quando está tudo bem) jorrar. Para obedecer a uma ementa, a espontaneidade tem de ser sistematicamente abafada. Aprender então passa a ser, de certa forma, desacreditar-se.
Entregar-se a um mestre é abrir mão não só do conhecimento adquirido com os professores, mas da própria personalidade construída a partir dele. Pois acreditamos que somos aquilo que conhecemos de nós mesmos a partir do que os professores nos ensinaram: seres biológicos, mistura de elementos químicos, átomos, entidade psíquica, profissional de mercado e por aí vai.
Não conseguimos nos perceber para além do que é cientificamente descrito e sistematicamente ensinado. É “resumir o viver ao que se sabe sobre a vida”.
Entregar-se a sua própria curiosidade é atender ao mestre interior. Estou dentro da Universidade e quero afirmar que enquanto a interdisciplinaridade for entendida como uma sobreposição de disciplinas sobre o mesmo trabalho, o resultado será grotesco e preguiçoso. Interdisciplinaridade (se é que essa palavra pode funcionar) deve ser a síntese dos diversos caminhos que você percorreu movido por sua própria curiosidade. Se isso não puder ser resumido em uma profissão, é sem dúvida uma deficiência do conceito de profissão.
Não é sem razão que cresce o número daqueles que defendem que a escola mata a possibilidade do insigth e do gênio, pois ela reduz a nossa chance de compreender o mundo (e a nós mesmos dentro dele) às suas disciplinas, e isso é ridiculamente pouco.
Inspirações para esse texto:
Escola de Redes, @augustodefranco, feedbacks em sala de aula e reunião de professores, Santiago, filme de João Moreira Salles, Zen, Tao, O Yoga e o Auto-Conhecimento.
Fabíola Morais é artista plástica e professora do Curso de Design da PUC-GO