Goiânia – Domingo de manhã, eu estava com a família na padaria. Já havíamos lanchado e eu já tinha começado o segundo tempo, ou seja, aberto a “cerva da missa”. Batizei assim porque é a primeira gelada do dia e a tampinha cai na mesa justamente no horário em que os religiosos e que têm fé estão indo para seu compromisso dominical. Curtindo essa tranquilidade, percebi um casal que passou pedalando, também aproveitando seu dia de folga semanal. Depois de algum tempo, pagamos a conta, despedimos dos amigos e fomos ao supermercado comprar alguns itens para nosso almoço.
No caminho, vimos ao longe uma ambulância parada. Ao passar pelo local, um cara desesperado ajoelhado no asfalto, desesperado e nervoso. Uma bicicleta estava jogada no canto. A garota, deitada no chão, sendo atendida pelos profissionais. Estava viva, não parecia nada sério, mas ela sangrava. Não sei o que aconteceu, não tinha carro parado, não ficamos ali urubuzando a cena. Era o casal que vi pedalando na frente da padaria. Alguns minutos depois da cena bonita do casal no domingo pela manhã, aquela tristeza escancarada na face.
Na hora, me lembrei da música Canto para minha morte de Raul Seixas. Se você não conhece, por favor, ouça agora. O início da letra já mostra o caminho pelo qual mestre Raulzito desenvolve sua tese. “Eu sei que determinada rua que eu já passei não tornará a ouvir o som dos meus passos. Tem uma revista que eu guardo há muitos anos e que nunca mais eu vou abrir. Cada vez que eu me despeço de uma pessoa, pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez. A morte, surda, caminha ao meu lado e eu não sei em que esquina ela vai me beijar”. Em um minuto, você está pedalando despreocupado pelas ruas vazias na manhã de domingo. No seguinte, está cercado pela equipe do Samu. Vida louca vida.
Sei que é a coisa mais clichê do mundo, mas definitivamente devemos viver cada minuto como se o último fosse. Não perder tempo com as questões menores e irrelevantes. Essas bobagens que consomem nossos dias podem fazer falta quando a hora de bater as botas chegar. A senhora da túnica preta está sempre ao nosso lado e infelizmente não sabemos quando ela vai nos abraçar. Hoje, amanhã ou quando estivermos velhinhos durante o sono tranquilo. Não interessa. O grande lance é a sensação de dever cumprido quando o momento inescapável chegar. Sem arrependimentos. Em especial os por não ter vivido o suficiente uma dada situação, pessoa ou momento. O peso desse trauma deve ser incalculável.
Por isso, lembrando Prince, vamos festejar como se fosse 1999. Ou melhor, como se o escorregão idiota fosse acontecer no próximo segundo.