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Esse país, esse povinho

17.06.2013 - 09:50:36
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                                      Manifestante participa de protesto usando vinagre em BH. (Foto : Rodrigo Nogueira)                                                                                                                           

Zurique – Não reisisti. Achei uma bandeira do Brasil junto com os brinquedos das crianças e coloquei em cima da televisão. No meio da madrugada fiquei olhando-a, meio boba, emocionada, intrigada, tentando decifrar o mistério. Comprei-a durante algumas das muitas Copas do Mundo passadas, usava-a nas costas, amarrada no pescoço, super-herói por um dia. De vez em quando pendurava-a na janela, marcando meu território.

Mas agora ela era apenas mistério. Que país é esse ?

Acompanhando intensivamente as últimas manifestações em São Paulo, minha cabeça explodia de perguntas, algumas fáceis, outras bem difíceis. Já nas últimas semanas, as dúvidas rondavam meu corpo, espreitavam as palavras lidas aqui e ali. Bolsa Família, Senado, PEC, Comissão de Direitos Humanos, Homofobia, Maracanã, Corrupção. Cada uma dessas letras, acompanhadas de formas incongruentes, multifacetadas, rostos e vozes discutindo ideias contrárias.

Protestos em São Paulo, Rio, Brasília, Belo Horizonte, Goiânia. A brutalidade da polícia se espalhando feito praga país afora, pessoas muito diferentes usando os mesmos argumentos para defender ideologias e visões completamente opostas. Acusações partindo da esquerda e da direita, sem rumo certo. Por todo lado, protesto, indignação, raiva.

No entanto, essa é a voz do povo. Não há como negar. E ele quer mudança, quer justiça, quer transporte bom e barato, quer dignidade, quer qualidade de vida, escolas, quer segurança. Chega de só futebol e novela . Chega de pão e circo. Ou pior, pouco pão e muito circo. O povo não é burro e vale mais do que mil ideologias.

Vivo em um lugar onde existe um sistema de democracia direta e comprovo isso todos os dias. Quando interesses e dogmas tentam levar o país a um ou outro extremo, o povo corrige com determinação, através dos plebiscitos populares. Há apenas uma semana, derrubaram, com cerca de 80% de votos, um projeto da esquerda (SP) e outro da direita (SVP). Assim, simplesmente. O povo é sábio.

Hoje a palavra de ordem é concordância. Caráter, dignidade não tem nada a ver com ideologia política. O importante é ter instituições políticas sólidas que segurem esses contrastes, que canalisem as divergências de uma forma construtiva. As soluções encontram-se no meio (que é diferente de centro). No Brasil, para se chegar ao meio, tem que se andar ainda muito para a esquerda, por uma questão muito simples, existe fome. Tirar as pessoas da miséria, oferecer educação, saúde e assistência social é um dever do Estado. Para isso se paga imposto, não só para construir estradas.

A recente discussão sobre o Bolsa Família me fez pensar a respeito. A Suíça é um país com uma economia liberal, mas um Estado social. As pessoas recebem uma boa renda do Estado se, por algum motivo, não puderem trabalhar, a riqueza é assim dividida. Meus filhos estudam em escolas excelentes, com esporte, educação musical, assistência médica e odontológica sem pagarmos nada.

Afinal, pagamos impostos. Quem está desempregado recebe seguro desemprego, e pode inclusive fazer cursos de formação profissional, aprender novas  línguas. Quem já esgotou o seguro desemprego e ainda não pode trabalhar, recebe da assistência social o suficiente para sustentar sua família, incluindo aluguel, alimentação, transporte, seguro saúde, escola, creches e até psicólogo e babysitter, em caso de pais solteiros.

Esse é o segredo da qualidade de vida e segurança que existem aqui ! E também em vários outros países europeus. Por causa disso, as crianças vão à pé sozinhas para a escola e posso dormir de janela aberta. Outro dia, esquecemos a chave de casa enfiada do lado de fora da porta durante a noite toda e não aconteceu nada. E não me digam que o Brasil não tem condições para fazer o mesmo. O Brasil é uma potência econômica. A única diferença é a cultura política, o sistema administrativo que facilita o desvio de verbas, independente de partido político e a falta de consciência de que o que chamam de  « país de merda » é apenas a soma de seus cidadãos e de que é preciso investir neles. Um país rico com cidadãos pobres e analfabetos seria uma piada se não fosse uma tragédia.

Como chegar lá? Cada um tem uma resposta diferente. E isso não é ruim nem absurdo. A visão política de uma pessoa é fruto de suas vivências pessoais. Tenho duas amigas com pensamentos políticos completamente opostos, e são duas pessoas íntegras, inteligentes e solidárias. A primeira teve um pai que começou a vida com quase nada, trabalhando desde pequeno, e, devido ao seu esforço, criou uma empresa, enriqueceu, constituiu uma grande família. Mais tarde, vendeu a empresa e comprou terras, porque lhe disseram ser um bom negócio. As fazendas foram desapropriadas pelo governo, ele perdeu tudo, foi parar num hospital, e seus filhos tiveram que trabalhar, ainda adolescentes, para sustentar  a mãe e os irmãos. Essa pessoa, hoje, não se identifica com  nenhuma política de esquerda.

A outra amiga é sindicalista engajada, participa de qualquer passeata, campanha, evento, ajudando em tudo que pode, faz questão de viver com simplicidade e tem uma mágoa muito grande contra os «  ricos » e políticos de direita. Seu pai foi menino de rua em São Paulo, e, mesmo assim, com muita luta, conseguiu criar e educar bem a família. Admiro e respeito a posição das duas. Cada pessoa é marcada por sua narrativa familiar, pela saga e sofrimento de seus antepassados, se foram exilados políticos, fugiram de guerras, foram expulsos de suas casas, viveram na Rússia, na Alemanha,  no Irã ou no Vietnã. Quem somos nós para julgar ?

Mas em uma sociedade deve ter lugar para todos. É necessário uma nova consciência política, com a participação direta e ativa de todos cidadãos, que rompa a barreira esquerda-direita, povo-elite, onde se construa um novo modelo de convivência, integrativo, um projeto que inclua não apenas uma classse social ou uma ideologia. Não existe um país só de direita, não existe um país só de esquerda. É preciso aglomerar, juntar esforços em um denominador comum.

Não existem anjos e demônios . Não existem partidos corruptos e partidos corretos. Não existe direita sem ética, esquerda com ética, nem o contrário. Os parâmetros são outros, são modelos diferentes, mas não necessariamente opostos  de sociedade. A hora é de uma nova consciência, que ultrapasse essa dicotomia, esse maniqueísmo superficial, usado principalmente como instrumento de manipulação pela classe política. Muitas vezes, a direita e a esquerda têm interesses comuns, é preciso descobrí-los, valorizá-los. Todos sairiam ganhando .

A luta do poder pelo poder, destrutiva, manipuladora, oportunista, é que massacra o país. Um governo de concordância é possível, sim! Sonho com um Brasil de concordância partidária, democracia direta, voto não obrigatório, economia liberal e um Estado verdadeiramente social.

E que parem de chamar o próprio país, a própria casa, de « país de merda » e seu povo sofrido e trabalhador (sim trabalhador !) de « povinho», como se ainda estivésssemos no Império e a rainha Carlota batesse regularmente, repetidamente, dia após dia, as solas de seus sapatos de luxo para se livrar da poeira dessa terra indigna. De um país órfão.

Somos todos filhos e pais dessa terra. Agora, todos pra rua!

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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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