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Eu escrevo, tu digitas

20.11.2014 - 09:56:48
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Goiânia – Dei uma checada na despensa e pedi para minha filha pegar uma caneta e um papel para anotar alguns itens que precisávamos comprar. Ela não saiu do lugar, e disse: “pode falar”. Eu falei: “Pega lá rápido senão eu esqueço tudo!”. Ela olhou pra mim com aquela cara que todo adolescente faz quando tem a chance de subestimar um adulto e respondeu: “eu vou anotar no celular”. E apontou o bichinho pra mim.

Ditei a lista de compras e depois fui pensar em como nunca tinha tido essa ideia antes, apesar de ter celular há muitos anos. A resposta vem do hábito. Na minha casa sempre tem um bloquinho e canetas ao lado do telefone e, incrivelmente, perto do computador e na sala de TV. Sempre é preciso anotar algo, então sou bastante prevenida.

Sou mesmo à moda antiga. Quando estou estudando gosto de fazer anotações, usar marca texto, canetas de cores diferentes para marcar e sublinhar. Se estou em algum curso ou palestra, sempre uso os kits que distribuem: pastinha, bloquinho, caneta. Em alguma emergência, acabo anotando algum telefone ou número de processo na mão mesmo. Nunca lembro do celular.

Aí vejo os alunos fotografando quadro, página de livro, cartazes, usando blocos de nota do notebook, e até digitando redações. Em muitas escolas já se realizam várias atividades sem caderno, apenas com Ipads. Nas empresas, foi-se o tempo das cartas e documentos feitos à mão, hoje é tudo padronizado e enviado por e-mail.

Meu primeiro emprego foi como balconista de uma locadora de vídeos, que obviamente, naquela época, não era informatizada. Tínhamos que anotar no bloquinho carbonado o número e o título do filme que estava sendo locado. Aos sábados, quando o movimento era surreal, eu saía de lá às nove da noite e tinha que colocar a mão no gelo.

Como jornalista, virei especialista em decifrar garranchos, inclusive os meus. Repórteres na minha época faziam anotações em laudas dobradas ao meio, e depois, na redação, ficavam tentando entender o que tinham escrito. Hoje eu vejo em transmissões ao vivo, quando dá aquele branco, o repórter consultando as anotações. No celular!

Quem chegou até aqui deve estar querendo saber onde quero chegar com essa conversa. Praticamente em lugar algum, ou a um meio termo interessante. A tecnologia torna muitos trabalhos bem mais rápidos e práticos, menos passíveis de erro e mais compartilháveis.

Mas escrever à mão é essencial quando o objetivo é o aprendizado e a memorização. Por isso os pequenos fazem tanta cópia de texto e caligrafia. Para exercitar os músculos das mãos e braços para essa atividade tão essencial. Então, quando uma criança fica com a mão doendo “de tanto escrever” é porque o exercício está funcionando.

Pesquisadores da Noruega e dos Estados Unidos já comprovaram também que escrever à mão exige mais esforço cognitivo que digitar. Ou seja, quem usa papel e caneta com frequência tem mais facilidade para memorizar a grafia das palavras e os conceitos difundidos.

Diante dos fatos, acredito que o bom senso e a sabedoria são essenciais na condução da alfabetização e no desenvolvimento intelectual de pessoas de todas as idades. Eu, pelo menos, sempre terei um enorme prazer em sentar debaixo de uma árvore com meu estojo e meu caderno, para escrever amenidades, fazer desenhos e rimar sem compromisso. Mas já consigo conciliar essa atividade bucólica com o Whatsapp.
                                                        

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por Leticia Borges

*Leticia Borges é especialista em Língua Portuguesa, jornalista, professora e palestrante.

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