Prezado Cupido,
Como o Dia dos Namorados já é amanhã, acho que você não conseguirá atender meu pedido ainda este ano. De toda forma, gostaria de já deixar registrado meu desejo para 12 de junho de 2013: eu quero amor feinho. Não se preocupe, vou explicar para que você entenda direitinho e possa me ajudar.
Há algum tempo, li no blog da minha talentosa amiga e jornalista Aline Leonardo um texto, que trazia, ao final, o poema “Amor feinho”, de Adélia Prado. Desde então, aqueles versos passaram a ecoar na minha cabeça e a fazer cada vez mais sentido.
Adélia Prado diz que amor feinho “uma vez encontrado, é igual fé, não teologa mais.” Também explica que “tudo que não fala, faz”. Delicadamente, ela define que “amor feinho é bom porque não fica velho. Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é: eu sou homem você é mulher.” Descomplicado e verdadeiro.
Não, eu não quero um amor dos filmes românticos de Hollywood, daqueles que nos deixam com a cabeça nas nuvens e mostram paixões que duram apenas duas horas. Quero amor feinho, porque ele chega para ficar. Mansamente, discretamente, despretensiosamente. Mas constante e persistente. Igual fé.
Também dispenso um amor campeão, que seja o melhor em tudo. Quero amor feinho, porque ele não quer chegar primeiro: quer chegar junto. E enquanto vamos caminhando lado a lado, ele me ajuda a remover as pedras do caminho e me mostra flores e borboletas que eu nem havia reparado que estavam ali.
Não quero um amor milionário, que me dê vida boa e presentes caros. Quero amor feinho. Ele vai à feira e, ao ver uma talha de melancia fresquinha, compra e leva para casa, porque sabe que eu adoro. Vai ao supermercado, vê uma orquídea branca e trata de colocá-la no carrinho, porque descobriu que é a minha predileta.
O amor feinho acorda de madrugada para beber água, e, quando volta para o quarto, fica sentado na beira da cama, me olhando dormir. E enquanto se dá conta de que nunca havia reparado quantas pintinhas eu tinha nos ombros, fica imaginando por onde diabos eu havia andado, que não nos esbarramos antes.
O amor feinho não faz promessas nem declarações de tirar o fôlego. Ele mostra que ama. Como na poesia, o que não fala, faz. Tímido e desajeitado com as palavras, não quer saber de discursos eloquentes. Sua especialidade são os abraços, os beijos, o acolhimento, a presença e até os puxões de orelha, quando necessários.
O amor feinho não entra em crise porque está envolvido, não se assusta com a possibilidade do compromisso nem diz que não devo me apaixonar por ele. É que ele não é autoritário, não quer mandar nos meus sentimentos nem no destino. Deixa as coisas fluírem, porque sabe que o melhor da vida acontece assim: naturalmente.
Quando briga comigo, o amor feinho fica numa tristeza de dar dó. Olha meu retrato e, numa mistura e fúria e saudade, decide dar um tempo. Mas ele sabe que não pode esperar demais. Então, aparece de repente na minha casa e, ao ver o quanto sofri e senti sua falta, conclui que o melhor é aprendermos, juntos, formas de viver em paz.
O amor feinho se senta na sala para ler um livro, enquanto leio o jornal. E ali passamos horas sem dizer uma palavra. Ficamos os dois naquele silêncio de cumplicidade, em que um tem absoluta liberdade de ser ele mesmo com outro, sem precisar arranjar desculpas para se mostrar atraente ou importante.
O amor feinho não conhece as piadas dos seriados americanos nem das comédias stand up brasileiras. Mas adora imitar meus trejeitos, das minhas amigas e até do meu cachorro. E então caímos os dois na risada, inventando graças bobas, de coisas pequenas e cotidianas, que só nós compreendemos o sentido.
Quando fica triste, o amor feinho permite que eu o abrace. E com meu calor, se acalma e compreende que a vida é mesmo muito louca, porque quando tudo parece dar errado, ainda há algo bom a celebrar. E quando as lágrimas são minhas, é ele quem me devolve o calor e me ensina que, de fato, resta sempre algo de bom.
O amor feinho não me deixa com as pernas trêmulas, com a boca seca ou com o coração acelerado. Ele me deixa serena, porque sabe que o amor não é uma dádiva pronta, não é paixão à primeira vista. É uma construção diária, que envolve empenho, disposição e coragem. Não é o ideal, é o possível com afeto e dedicação.
Não sei por onde anda meu amor feinho, mas talvez você saiba, Cupido. Sendo assim, por favor, faça com que nossos caminhos se cruzem. Provavelmente, ele deve estar querendo a mesma coisa, pois também acredita no amor. Sei disso porque foi Adélia Prado quem disse que “amor feinho não tem ilusão, o que ele tem é esperança”.
Obrigada,
Fabrícia