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Eu sempre escolho o caminho errado

14.10.2014 - 12:14:34
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Goiânia – Domingo de manhã, sol a pino e acordei de ressaca – como é de práxis na maioria dos domingos desde que apontaram os primeiros fios de barba em minha face. Antes de abrir a primeira do dia, busquei no meu âmago algum resto decência para injetar disposição em minha veia e encarar o dever que há semanas me assombrava: um monte de folhas secas do meu quintal se acumulavam e eu precisava dar um jeito. Como todo homem honrado de ressaca, não fugi da obrigação.

Qualquer moleque sabe que existe uma vestimenta padrão para serviços de jardinagem. Calçados fechados, óculos, chapéu, mangas longas, luvas e calças compridas. Esse seria o tal do equipamento de proteção individual que os técnicos em segurança do trabalho tanto recomendam. Mas quem disse que saber do certo nos faz automaticamente a fazer o certo? Eu sempre escolho o caminho errado.

Naquele calor senegalês da manhã de domingo, não quis vestir o que era apropriado. Coloquei uma bermuda, óculos escuros, boné, me melequei inteiro de filtro solar e fui ao trabalho. Sem camisa e de chinelo Havaianas. A gente sempre acha que nada dará errado, mesmo quando todas evidências mostram que sim, tudo dará errado. Cabeças-duras de todo mundo, uni-vos!

Comecei o serviço no jardim e depois de mais ou menos uma hora de trampo, senti uma dor descomunal na sola do pé direito. Olhei para baixo e o sangue lavava meu chinelo. Pisei em um galho de bougainville e um espinho que mais parecia um chifre de zebu atravessou o chinelo e fez um baita furo em meu pé direito. Ficou preso e urrei de dor para tirá-lo dali. Fui lavar o machucado na mangueira e meu pé sangrava mais do que alguém atingido pelo machado do Jason no Sexta-Feira 13.

Depois que a cachoeira vermelha foi estancada, seria prudente pegar o carro e buscar uma vacina contra tétano. Mas quem disse que saber do certo nos faz automaticamente a fazer o certo? Já disse e repito: eu sempre escolho o caminho errado. Fiquei puto da vida, larguei o serviço no jardim e abri a primeira cerveja do dia. Apesar de todos os sábios conselhos de minha mulher para irmos em uma emergência providenciar a vacina, meu espírito urtigão optou pela pior solução: beber para esquecer a dor. Por que a gente é assim?

Como eu queria ser o cara responsável, que sempre opta pelo caminho recomendado pela OMS. Mas como eu já disse em outro texto, quem nasceu para Homer Simpson nunca será Ned Flanders. Continuei o domingo bebendo para refrescar o calor, com o pé doendo e de alma tranquila. Mesmo sabendo que fiz tudo errado. E o pior de tudo: não há a menor expectativa de que eu mude para melhor. Para bicho turrão como eu é assim: fazemos o errado e não nos esforçamos para mudar. Não nos orgulhamos de ser assim, mas também não quer dizer que queremos mudar.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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