Goiânia – Ontem estive no sensacional show do Alceu Valença na
abertura do projeto Música no Campus 2013. Como todo bom brasileiro, não me organizei
e deixei para pegar o ingresso na última hora. Como o evento bombou
absurdamente, a fila estava gigantesca. Fazer o quê? Fiz aquilo que aprendi a
fazer desde criança: fui para o final da fila. No caminho, encontrei vários
amigos que estavam na frente. Cumprimentei todos. Sequer cogitei dar o migué e
ficar por ali. Muito menos pedir para eles resolverem o lance do ingresso para
mim. Não tenho coragem. Aí que vi que sou muito trouxa.
Eu sou muito trouxa porque não tenho coragem de furar fila enquanto
todos aqueles que frequentam um ambiente intelectualizado como é um show de MPB
de preço popular em uma universidade o fazem de forma descarada. Só tinha
estudante, professor, descolados, hipsters, afins. E cara de pau para tudo
quanto é lado. Quando a farinha é pouca, meu pirão primeiro. Quando a fila é
grande, “compra aí pra mim”.
Eu sou muito trouxa porque não tenho coragem de fazer uma
carteirinha de estudante do Paraguai. Pago preço dobrado em shows e cinema por
não ter o documento falcatrua no bolso, enquanto todo mundo que conheço o
apresenta sem peso algum na consciência. Deixo de ir a um baita show como o da
Maria Bethânia por grana e um amigo que não estuda desde 1992, com uma
carteirinha do curso de Administração de Empresas de uma instituição de ensino
superior particular tão falsa quanto uísque de prostíbulo, paga 50% mais
barato.
Eu sou muito trouxa porque não dou conta de expor a burrice
sem tamanho de certa intelligentsia goianiense, mais preocupada em mostrar do
que aprender alguma coisa. A galera está mais focada em ser rei de um universo
de meia dúzia de babacas do que produzir algo realmente significativo, que
tenha profundidade, que mexa com o marasmo. Na verdade, o marasmo é
interessante, pois, nesse cenário, é mais cômodo. Quando a safra é ruim, os
vinhos medíocres se destacam. Tem gente que segue essa linha de vida.
Eu sou muito trouxa porque não consigo dar carteirada como
vários colegas de profissão para entrar nas coisas. Tem jornalista que não paga
ingresso para nada desde que viu seu nome na lista de aprovados do vestibular.
Na maior cara de pau, mesmo quando não têm vínculo algum com publicação alguma.
E dá-lhe festa, e dá-lhe show, e dá-lhe jogo, e dá-lhe boca… Além de ter
vergonha, falta paciência. Mas isso é problema meu, né?
Enquanto os trouxas forem minoria, reclamar de roubalheira
no universo político é mero exercício retórico. A picaretagem não é dos
engravatados, a picaretagem é geral. Enquanto isso, pipoca outro escândalo por
conta dessa cultura da malandragem.