Goiânia – Estou acompanhando pela imprensa a comemoração pelos 60 anos da revista Mad com certa nostalgia. Eu já fui um voraz leitor da publicação. Sabia o dia exato que ela estaria nas bancas da cidade e batia ponto na Praça do Avião para ter a minha. Me divertia horrores com as paródias dos grandes artistas e políticos, com as tiradas em cima dos leitores na seção de cartas, com as tirinhas do Ota, com os espiões Spy vs Spy… Não tenho dúvidas que a leitura da Mad contribuiu para eu hoje ser quem sou. Só não tenho certeza se isso é bom ou ruim.
Não me recordo com precisão do primeiro exemplar da revista que esteve em minhas mãos. Eu era um rato de banca de revistas e alguma capa com aquele esquisitinho do Alfred E. Newman deve ter me atraído. Esse nome gringo para o personagem orelhudo símbolo da revista só pegou mesmo no exterior. A galera aqui no Brasil chamava o cara de Mad. E tenho certeza que você já conheceu alguém apelidado assim. Na infância, um amigo que morava no prédio de minha avó, o Ramón, tinha essa alcunha. Não é para menos. O Mad do segundo andar era a cara de Alfred. Na última vez que o encontrei, ele estava trabalhando na Navesa do Setor Aeroporto. Uma abraço aí, Mad!
Dos 11 aos 14 anos, comprei a revista todos os meses. E dá-lhe piada sobre os Simpsons, crise no governo Collor, segunda edição do Rock in Rio e tudo mais que estivesse acontecendo. A iconoclastia era a maior bandeira da Mad. A parte destinada aos leitores era o maior exemplo dessa falta de respeito a tudo e a todos. O cara escrevia para ser amplamente zoado pelos editores. Mandei algumas cartas para lá. Nunca tive nada publicado. Todos têm uma frustração para ostentar como uma tatuagem.
Quando fui para o segundo grau, comecei a achar a revista meio sem graça. A idade bateu. Na verdade, olhando hoje em retrospecto, o problema foi que a demanda da chegada da vida adulta pela transição da adolescência me distanciou dos fenômenos pop de massa. Eu não conseguia entender mais as piadas sobre os filmes blockbusters, novelas ou programas da Globo. Eu não assistia nada disso. Além disso, vivi uma fase de sectarismo político e cultural nesse período da vida. Se não fosse punk rock era ruim. Se não tivesse fim social era bitolado. Se não tivesse mensagem de protesto era alienado. Era difícil ter espaço para a Mad nesse contexto.
Anos depois, já na faculdade, namorei uma garota que tinha um irmão dez anos mais novo. Como eu gostava (e ainda gosto) do cara, lhe presentei com uma Mad. A pré-adolescência é o período certo para tatear esse universo. Ele não se interessou pelo assunto. Normal. Cada um pira em um lance diferente na vida. Eu aproveitei e li a revista. Não achei engraçado. Não era para minha faixa etária. Foi a última vez que tive uma Mad em mãos. Mas torço para que isso acabe logo. Quero que minhas filhas também sejam leitoras da publicação. Acho que será legal para elas. E tomara que a Mad continue firme por aí por mais 60 anos. O mundo precisa de mais esculacho. Palestra politicamente correta já tem demais.