Goiânia – Meu DNA africano se manifestou no cabelo. Crespo, de fios grossos que parecem cordas de baixo, facilmente identificável como afro. Hoje me orgulho do black power que eventualmente deixo aflorar. Nem sempre fui assim.
Na adolescência, quando deixei o cabelo crescer pela primeira vez, me incomodava o fato dele ir para cima e não cobrir as orelhas como os cabelos lisos. Até conseguir amarrá-lo, fui adepto do boné. Eram outros tempos. Quebrei meu superego de cabelo há mais de uma década. Não o penteio desde então.Quando o lavo, passo a mão, dou uma bagunçada e pronto. Assumo minhas madeixas enroladas com orgulho.
Quando recebi o e-mail de minha amiga Aline Mil comentando sobre a polêmica provocada pelo estilista Ronaldo Fraga, não sabia o que dizer. Não fiquei ofendido com a comparação como muitos ficaram, não sou do tipo que fica facilmente incomodado. Por outro lado, também não posso dizer que gostei: achei meio despropositada a homenagem que o cara alega ter feito. A real é que não entendo nada de moda e nem sou parâmetro para o politicamente correto.
Segundo meu amigo Fabrício Nobre, minha estratégia para decidir o que vestir é mesclar cada peça do meu armário que não combina com a outra e usá-las de forma concomitante. Não é verdade. Mas também não é nada ortodoxo.
Respeito uma ordem aleatória de combinação. Divido as camisetas por categorias (trabalho, casa, balada, futebol e cavadas), pego sempre a última do guarda-roupa dentro daquele grupo que desejo e coloco as recém-passadas do lado oposto. A mesma coisa com as demais peças. Fica um rodízio contínuo onde nenhuma roupa fica usada demais e nem esquecida no fundo. É claro que tem dias que o acaso ajuda e tem dias que não. Fazer o quê? Método é método e deve ser respeitado.
Isso já mostra que na minha hierarquia de prioridades, moda vem logo após baseball venezuelano. Talvez a genialidade de Fraga passe batida perante minha percepção tosca e decrépita. É uma hipótese. Talvez o cara tenha mandado uma baita bola fora.
Outra hipótese. Talvez o politicamente correto esteja contaminando de tal forma o olhar da média que qualquer tentativa de homenagem fora do óbvio (convidar modelos negras e de cabelos afros para o desfile) soe ofensiva. Uma terceira possibilidade. Diga aí, qual é mais plausível?
Acho que o cara errou o tom, mas nada para se transformar em grandes dramas. O silêncio seria o pior dos cenários para o estilista. O problema é que, cada vez mais, coisas insignificantes andam se agigantando e se tornando monstros tal qual os que os Changeman enfrentavam – nesse caso, só com um robô de tamanho considerável para enfrentar.
E esses robôs andam escassos no mercado do bom senso. Tudo é motivo de processo no Brasil, é recalque demais para todos os lados. Consequência: mais e mais polêmicas bobas repercutindo além do que deveriam.