Goiânia – Acho muito engraçado quando vejo uma pessoa dizendo para outra: “Não se apaixone por mim, me pegue mas não se apegue”. À primeira vista, parece um gesto de extrema sinceridade. Soa como uma advertência cuidadosa, parece que o outro está preocupado com nosso bem-estar e não quer que criemos falsas expectativas.
Que pessoa legal, não é? Pois eu não vejo nada de legal nisso. Primeiro porque me parece uma coisa totalmente autoritária. É a outra pessoa quem decide a intensidade dos seus sentimentos, quem determina até que ponto você pode se interessar por ela e querê-la por perto? É ela quem vai estabelecer se você vai se apaixonar ou não?
Depois, porque me parece um tanto leviano. É uma forma mascarada de se isentar de qualquer responsabilidade sobre a relação, uma maneira de dizer ao outro: “Se eu te desapontar, não fique chateado porque te avisei desde o início que isso iria acontecer. Meu compromisso é comigo e apenas comigo!”.
E como esse tipo de “advertência” está se tornando comum… Meu Deus, já perdi a conta de quantos amigos e amigas vieram buscar meu consolo por causa disso. Eles não querem expor seu sofrimento, mas se martirizar, se culpar pela situação, afinal, “ele/ela me avisou para não me envolver e eu não segui a recomendação!”.
É o tipo de situação que me dá descrença. É gente que quer viver pela metade, só na superfície, por medo do que a profundidade de sentimentos pode causar. Para se proteger da entrega, estabelecem relacionamentos cheios de regras, praticamente não deixam o outro entrar em suas vidas.
É um tal de “durante a semana a gente não se encontra, só no final de semana”, “não vamos ficar em público, só na minha casa”, “não somos namorados, apenas amigos”, “vamos nos ver menos, porque estou me apegando e não quero que isso aconteça”, “não traga seus problemas para mim”, que vou te contar, cansa.
Esse modo calculado e defensivo de agir na vida afetiva não me atrai nenhum pouco. Tento ver as vantagens, até já quis me convencer de que é assim mesmo que o mundo funciona, mas não tem jeito. Tenho vocação para a profundidade, para ir até o osso, me entregar sem medo e saltar no escuro sem rede de proteção.
É claro que já me esfolei muito. Fui até o fundo do poço, conheci o lado amargo e angustiante do que se chama de amor. Entretanto, não me arrependo de nada. Doeu, mas se esse é o preço que se paga por viver um sentimento intensamente, de se abrir para o outro e para o que ele oferece, eu pago feliz.
Fácil não é. Sem dúvida, a superficialidade é bem mais cômoda. A ilusão do controle (sim, ilusão, porque no final das contas a gente compreende que não controla nada) parece uma saída bem mais racional e recomendável. Se jogar num amor é sinal de risco, envolve ganhar e, também, perder. E sofrer. E chorar.
Mas o que eu quero levar para o túmulo quando morrer são os amores que vivi intensamente, e não os telefonemas que deixei de dar, os encontros agendados e sem tesão, as palavras não ditas. Quero carregar o que fiz e as consequências disso, não o quê deixei de fazer por comodismo ou covardia.
Ouvindo Amor brando, da cantora Karina Buhr, penso em como a letra reflete a maneira como se vive o amor nos dias atuais: “Tava tudo tão facinho, no rasinho. (…) E eu te peço que se aproxime de mim um pouco, mas não tanto, a ponto de eu sentir sua falta quando você for embora…”
Por medo de sermos tragados pelas ondas, ficamos no rasinho. Molhamos apenas os pés e, diante daquela imensidão toda, imaginamos como seria bom mergulhar de cabeça. Sentimos uma ponta de tristeza, mas pelo menos nossos pés ainda tocam o chão. E enquanto vemos o mar, recitamos Mario Quintana: “Amar: fechei os olhos para não te ver/ e a minha boca para não dizer…/ E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,/ e da minha boca fechada nasceram sussurros/ e palavras mudas que te dediquei… O amor é quando a gente mora um no outro”.