Goiânia – O jogo termina, o vexame é feio, o clima de festa acaba e o sonho do hexa, dessa vez, também. Os torcedores, ainda meio atordoados, correm para as redes sociais para jogar para fora toda indignação com placar. Até aí, justo: 7×1 foi feio demais. Inimaginável e incompreensível. Mas isso se acabou se misturando com preconceito e falta de informação.
Circula um texto na internet carregado disso, cujo autor não consegui nem encontrar. Não sei se me preocupo mais com o texto, em si, ou com a fácil e rápida adesão de tanta gente. Explicito e contraponho alguns pontos dessa redação. Aliás, coloco na íntegra e sem alterar em nada:
1) Isso representa mais que um simples jogo! Representa a vitória da competência sobre a malandragem!
Sem dúvida a Seleção Alemã é um exemplo de competência no futebol. Eles são um time, de verdade, sem nossa supervalorização de jogadores individuais (talvez um dos maiores erros de nossa atual Seleção). Eles são muito competentes e 16 dos 23 jogam juntos no Bayern de Munique. A sintonia vem de antes. Eles souberam, mesmo, ralar e treinar. E sabiam muito bem a que vieram e caminham aí, seguros para esse resultado.
Sem surpresas: a gente sabia muito bem (pelo que foi mostrado nos últimos anos) que nossa Seleção não teria o Hexa com facilidade. A taça não estava para gente. Mas, ora, ela não ralou menos, não treinou menos. Não tentamos ganhar esse jogo sendo desonestos. Colecionamos erros, verdade, mas pouco provável que um deles seja preguiça e falta de caráter dos jogadores enquanto atletas. Eram 32 seleções. Ficamos entre os quatro e, cá entre nós, já foi bem bom! Quem diria que teríamos os cinco feriados!
O vexame foi feio, mas não invalida nem as vitórias até hoje, nem a história do futebol brasileiro, eternizada na do mundial. Futebol não é jogo previsível. E essa Copa revelou todas essas surpresas. Se dessa vez a coisa foi feia, em 2002 fomos nós que ganhamos sobre a Alemanha. Com técnica e também com o gingado, provavelmente.
Ora, nossa malandragem nunca foi rejeitada no futebol. O nosso gingado, a imprevisibilidade de passes que fogem a táticas talvez, seja nossa cara, nossa marca nos gramados. Quem não parava para ver de que Garrincha era capaz em campo? E isso é criatividade.
Fora de campo, talvez falte distinguir nossa autenticidade e criatividade da cultura do espertinho (que
eu mesma já critiquei aqui). O mundo todo se encanta com nossa capacidade de criar, de reinventar.
Bebemos em tantas fontes. Somos frutos de tantas raízes. Filhos de tantas culturas. Que maravilha, que autêntico sermos tudo isso que define nosso jeito de jogar bola, de fazer música, de fazer festa, de rezar, de trabalhar. Não sei qual manual de ética coloca isso como causa de sonegação de impostos. De suborno ao guardinha. Usar de nossa boa malandragem, da nossa autêntica criatividade não é escorar nela atitudes sórdidas para justificar falta de caráter.
A gente não precisa ser alemão ou suíço para não ser corrupto. O que precisamos é parar, de uma vez por todas, de vestir essa roupa de colonizados, relacionar falta de caráter ao lado de baixo da linha do Equador, e nos apropriar de todas as coisas boas que nossa história e nossa natureza nos fizeram.
2) Serve de exemplo para gerações de crianças que saberão que pra vencer na vida tem-se que ralar, treinar, estudar!
Nossos filhos não precisam se espelhar em alemães para saber que para “vencer na vida” (aliás, ô terminho que me arrepia) tem que ralar, treinar, estudar. Aliás, a Alemanha está cheia de bons, mas também péssimos exemplos. As crianças que estão crescendo, para serem decentes na vida (o que para mim é bem mais grandioso que vencer na vida), podem encontrar exemplos bem mais próximos. Estamos cheios deles em nossa nação: de atletas, a artistas, intelectuais, profissionais de tantas áreas, cientistas… Eu mesma queria ser tantos brasileiros quando eu crescesse!
Mais próximo, nossos filhos têm exemplos dentro de casa: de pais, de avós, de amigos. De gente letrada a analfabeta: o exemplo reside na sabedoria, na humanidade, no cuidado com as relações, com a comunidade onde vive. Na capacidade de ser honesto, quando lhe falta muito. De ser alegre e criativo, quando tem tão pouco.
3) Acabar com essa história de jeitinho malandro do brasileiro, que ganha jogo com seu gingado, ganha dinheiro sem ser suado, vira presidente sem ter estudado! O grande legado desta copa é o exemplo para gerações do futuro!
Raymond Whelan, inglês. É esse o nome e a nacionalidade de quem ganhou destaque nessa Copa por ganhar dinheiro sem ser suado. Suspeito de fornecer ingressos para um esquema internacional de venda ilegal de entradas da Copa do Mundo. Por trás do propinoduto mantido há quase 20 anos por sucessivos governos do PSDB em São Paulo para desviar dinheiro das obras do Metrô e dos trens metropolitanos, ora ora: uma empresa alemã!
Quanto a se tornar presidente sem ter estudado, me limitaria a famosa frase de Kant: erudição não cura estupidez. Mas devo estender que política não se faz com graduação, mestrado, doutorado. Uma capacidade que só se desenvolve (com excelência) na possibilidade de agir em conjunto, de dialogar com tantos, agir tendo em vista algo maior que pagar suas contas. Analfabeto ou letrado é indiferente.
4) Que um país é feito por uma população honesta, trabalhadora, e não por uma população transformada em parasita por um governo que nos ensina a receber o alimento na boca e não a lutar para obtê-lo! A Alemanha ganha com maestria e merecimento! Que nos sirva de lição!
Carga-horária semanal de trabalho na Alemanha: 40 horas. No Brasil: 44 horas. Ainda se discute atualmente na nação alemã uma redução para 32 horas para pais com filhos pequenos. No Brasil, a discussão da redução da carga-horária sempre patina no Congresso.
Seguro-desemprego lá pode chegar ser pago por 24 meses e o valor pode equivaler a até 67% do último salário liquido. Aqui: parcelas pagas por, no máximo, cinco meses e o teto é de R$1304,63.
Que nos sirva de lição essa nação que sabe a importância da assistência quando o povo precisa do Estado. Quando não é mesmo ele a conduzir à marginalidade os seus próprios membros.
5) Pátria amada Brasil tem que ser amada todos os dias, no nosso trabalho, no nosso estudo, na nossa honestidade! Amar a pátria em um jogo de futebol e no outro dia roubar o país num ato de corrupção, seja ele qual for, furando uma fila, sonegando impostos, matando, roubando! Que amor à pátria é este! Já chega!!! O Brasil cansou de ser traído por seu próprio povo!
Eu também acho bem feio idolatrar os jogadores num dia e no outro chamá-los de incompetentes que não treinam e queriam vencer na malandragem. Acho bem feio cantar o hino se arrepiando numa tarde e horas depois queimar a bandeira. Divertir-se à beça, em casa, nos bares ou em estádios e no outro dia dizer que isso tudo é alienação.
Eu nunca entendo quem chama de povo sem se incluir nisso. Povo é o outro. É aquela massa a qual não pertenço. Aquele bando de ignorantes. Talvez seja você mesmo quem esteja traindo sua nação. Ao rebaixá-la a algo que você nunca fez ou será parte. Esse povo, cheio de contradições, é você mesmo.
6) Que sirva de lição para que nos agigantemos para construirmos um país melhor! Educar nossos filhos pra uma geração de vergonha! Uma verdadeira nação que se orgulha de seu povo, e não só de seu futebol!! É isso ai!
Um 7×1 é uma lição ali pro Scolari e Parreira. Para os jogadores dessa seleção. Para todo mundo preocupado com futebol no país e no mundo. Lição para gente construir um país melhor está bem longe daquele resultado e daquele campo. Se a Alemanha nos deixa, em campo, alguma lição para construirmos um país melhor, é que nenhuma vitória se conquista sozinho. Jogando as esperanças nos braços de um supercraque ou de um superpresidente, que nunca virá. Nem da esquerda, nem da direita.
Vergonha mesmo é, nesse mesmo 2014, celebrarmos 50 anos da ditadura sem sabermos a história desse país. Sem direito ao passado, abrindo espaço para que ele se repita por falta de compreensão, de julgamento. Vergonha é termos as mesmas empresas corruptas dessa ditadura vencendo licitações milionárias e sendo as maiores doadoras de campanhas eleitorais. Aliás, outra vergonha são essas mesmas campanhas sem teto de gastos, conduzindo as decisões eleitorais pautadas em cifras.
Por essas e tantas vergonhas, temos mesmo que avançar. Mas nada tira a razão do orgulho de ser o que somos, latente nas rodas de coco, nas festas de maracatu e de bois no Norte e Nordeste. Estampado nos gaúchos que vibram as belezas de sua terra e de seu jeito de viver. Na tradição das festas de reis e do divino no coração do Brasil. Em cada canto, em cada manifestação cultural, cada talento, uma alegria que a gente reconhece na gente mesmo. Não dá para ficar refém de gol e de vitória em futebol para encontrar o orgulho de ser brasileiro.