Odeio a hora que tenho que fazer a mala. Não sou daqueles que se planejam e vão organizando tudo com antecedência monstruosa. Como bom e velho brasileiro, deixo tudo para os 48 do segundo tempo. Sempre tento o gol salvador nos acréscimos. Na verdade, é a mais pura protelação de algo que não gosto de fazer. Sei que não vou escapar da tarefa, mas estico a corda ao máximo para ver se não acontece algo que me salve dessa barca.
O pior de tudo é a angústia de estar esquecendo algo. Que sensação desconfortável! Você repassa as categorias todas: roupas de casa, roupas de sair, meias e cuecas, higiene pessoal, farmácia, livros e revistas, filmes, músicas… Parece que está tudo ok. Só que nunca está. Basta você abrir a mala no seu destino que verá que um item essencial para o período ausente de casa ficou no armário. Dá vontade de morrer.
Quando é possível para comprar um substituto, ainda vai. O problema é quando estamos tratando daquele chapéu de estimação que sempre nos acompanha pelo litoral. Ou aquele chinelo mais confortável que colo de mãe. Aí a coisa fica difícil e não tem C&A do mundo capaz de resolver a questão. E a dor por ter uma memória tão combalida lhe acompanhará por todos os longos dias de viagem. A vida é dura.
Outro lance chato de fazer a mala é fazer a bendita fechar. Toda vez, tenho certeza que o zíper não aguentará a pressão exercida por tanta coisa ali guardada. Mas parece mágica: depois de muito aperto, ela acaba fechando. Só que invariavelmente esqueço de colocar algo lá dentro. Então, depois de tanto esforço, é preciso abrir novamente e passar por aquele transtorno outra vez. Se na ida a coisa já é complicada, na volta o problema é infinitamente maior. Não sei porque roupa suja ocupa mais espaço que limpa. Pessoal da Física, por favor, alguma pista?
Mas vale ressaltar que a canseira da mala é café pequeno frente ao prazer de uma viagem. Não é por menos que gastamos o que não podemos e planejamos durante todo ano esse momento tão especial. Dos males, fazer a mala é um menor. E lá vamos nós pegando a estrada de novo.