Sarah Mohn
Goiânia – Na semana passada, quando a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo publicou uma nota "em defesa da dignidade, da cidadania e da segurança" dos homossexuais, eu compartilhei a notícia no meu Facebook e uma pessoa desconhecida – não sei vocês, mas 90% dos meus amigos virtuais eu nunca vi na vida – comentou que eu estava desrespeitando o direito dos heterossexuais em não aceitar os direitos fundamentais e constitucionais da comunidade LGBTT.
“Vcs estão querendo ser ditadores, criticando a opinião contrária a de vcs”, escreveu o indivíduo. Gente. Que preguiça. Não dei sequência ao debate, porque era feriado e eu tinha coisa melhor para fazer do que discutir com quem ostenta pensamento intolerante. Mas agora, sim, vou contra-argumentar, porque preconceito não pode ser ignorado e esse assunto merece um espaço maior e não limitado a um perfil em rede social.
Querido colega e demais simpatizantes da intolerância, acho importante deixar claro que os homossexuais não querem ser ditadores. Não querem impor a todo mundo relacionamento sexual e afetivo entre pessoas do mesmo sexo. Os gays não têm interesse algum em infligir a orientação sexual deles ao universo. Eles não querem que vocês sejam iguais a eles. O que exigem é respeito e igualdade de direitos básicos. E, por isso, toda atitude de qualquer pessoa desse planeta, que se aproxime desse objetivo, é necessária e bem-vinda.
É preciso que as pessoas compreendam que é fundamental que o combate à homofobia seja perene e ostensivo. Isso não quer dizer que os defensores dos direitos humanos e a mídia estejam “impondo” ou “ditadorizando” opiniões contrárias aos direitos LGBTT. Primeiro, porque direito, no aspecto jurídico, não é questão de opinião, mas de obrigação. Segundo, porque a luta deve existir e se manter firme enquanto a homossexualidade não for tratada com naturalidade pela sociedade.
Nesse caminho, ainda é necessário que existam eventos afirmativos, como a Parada Gay; pessoas dispostas a debater e compartilhar em redes sociais assuntos ligados ao tema; articulistas que deem a cara à tapa para criticar intolerância; novelas televisivas que narrem histórias de casais homossexuais; um Papa que frequentemente se posicione a favor da tolerância e provoque reflexão entre religiosos; e campanhas corajosas, como a de O Boticário, veiculadas em horário nobre na rede aberta de TV, nos outdoors, nas revistas, nos jornais, no Youtube etecetera e tal.
Tudo o que for feito para naturalizar o que é natural, desde que mundo é mundo, é imprescindível. Homem se relaciona com homem e mulher com mulher, assim como homem com mulher, desde quando primatas éramos. Por interesses culturais e religiosos, essa característica inerente à espécie humana foi sendo censurada e marginalizada ao longo dos séculos. Mas nunca deixou de existir. Nunca. Deixou. De. Existir. E acho importante informar que: vai continuar existindo, independentemente da vontade de quem discorda.
Portanto, para garantir uma vida mais justa a todo e qualquer cidadão, devemos reconhecer como iguais mesmo os que são diferentes de nós. Diferentes intelectual, física, profissional, cultural, econômica e sexualmente. E não nos espantarmos com campanhas publicitárias que defendam igualdade, que levantem a bandeira do amor, qualquer que seja.
Lamento que essa luta seja ignorada ou mesmo rejeitada por quem mais deveria – já que tem a prerrogativa de criar e votar nossas leis no país. Lamento que nossos representantes políticos estejam postergando a votação do projeto de lei parado no Congresso Nacional que criminaliza a homofobia, a mais básica e óbvia reivindicação da categoria. E lamento, tanto quanto, conviver socialmente com quem critica uma propaganda que compartilha amor.
Algo está muito errado quando fazemos o oposto a reverenciar quem promove atitudes humanizadas. Mesmo que elas advenham de empresas, mesmo que o cunho aparentemente social, lá no fundo, seja comercial. Precisamos de ações corajosas. Precisamos de um mundo realmente justo. Precisamos de mais estratégias de marketing nessa linha. Precisamos de mais O Boticário na sociedade. A próxima data comemorativa é o Dia dos Pais. Fica a dica.