Yuri Lopes
Goiânia – Mais uma vez uma produção brasileira tem chances de ganhar um Oscar. O curta-metragem A Fábrica, do curitibano Aly Muritiba, está entre outros 10 filmes que vão concorrer à lista de indicados ao prêmio máximo do cinema na categoria curta-metragem. O resultado dos finalistas sai no dia 10 de janeiro.
Reconhecimento
A Fábrica já ganhou cerca de 30 prêmios desde que foi lançado no ano passado. Só no Festival de Cinema de Brasília de 2011 saiu campeão nas categorias curta-metragem de melhor filme segundo júri popular, melhor atriz para Eloina Duvoisin e melhor roteiro.
Produzido pela Grafo Audiovisual, o curta também recebeu prêmio de melhor filme de ficção no Festival da Coreia do Sul, considerado o mais importante do gênero na Ásia. A produção de Aly Muritiba foi selecionada para o Festival de Clermont Ferrand, que é o festival internacional de curta-metragem mais relevante do mundo.
Em entrevista por telefone ao jornal A Redação, Aly Muritiba contou o que o motivou a fazer um filme sobre o sistema carcerário no Brasil visto de dentro para fora, o que mudou na vida após a possível indicação e sobre os próximos capítulos da trilogia iniciada com A Fábrica, e que tem estreia prevista para 2013. Confira a seguir a entrevista concedida de Curitiba, onde mora com a família.
A Redação: Qual foi a sua maior ambição quando você fez A Fábrica?
Aly Muritiba: Desde o início eu quis que o filme fosse visto pelo maior número possível de pessoas. Meu filme fala de coisas que eu acho que as pessoas precisam saber, conhecer e entender.
Quais elementos do filme as pessoas precisam tomar conhecimento?
Que mesmo em um ambiente de difícil concivência é possível existir sentimentos bonitos como o amor e a amizade. Você pode até prender uma pessoa, mas não consegue prender os sentimentos dela. Não tem como forçar alguém deixar de amar ou odiar.
Veja o trailer de A Fábrica, de Aly Muritiba.
Qual a diferença entre o seu filme com os outros que abordam o mesmo tema?
Eu trabalhei no sistema penitenciário aqui no Paraná por cinco anos. Eu conheço como as coisas funcionam de dentro para fora. Me incomodava como os presos são mostrados pelo cinema e pela mídia. Eles são sempre tratados de forma maniqueísta; sempre como coitados ou como malvados, mas nunca na complexidade que é um ser humano. E eu entendo o motivo dos cineastas e jornalistas abordarem os carcereiros dessa forma injusta. É que eles só conhecem de fora para dentro, superficialmente. Os caras chegam, fazem uma visita técnica de pouco tempo e pensam que conhecem a realidade, quando a realidade é bem mais complexa.
O filme foi premiado em festivais de cinema em Brasília e até na Coreia do Sul. O reconhecimento era algo que você almejava?
Ganhar prêmio é sempre bom e às vezes rola até uma grana, mas o que eu mais queria mesmo era que as pessoas vissem o meu filme. Independente de prêmio, o objetivo era que fosse visto. A Fábrica está na programação da Mostra de Direitos Humanos, com exibição em todas as capitais do Brasil, e isso me deixa muito contente, já que meu filme poderá ser visto de São Paulo ao Pará. (Em Goiânia a Mostra será realizada de 14 a 19 de dezembro, no Cine Cultura).
Você contou toda a história que queria com A Fábrica?
Estou preparando uma trilogia sobre o sistema penitenciário no Brasil. O segundo filme já está pronto, é um curta-documentário que se chama Pátio e deve estrear no início de 2013. Já o terceiro e último filme está em andamento e deve ser lançado no meio do ano, no circuito de festivais. Não quero categorizar, mas é um longa híbrido entre documentário e ficção e se chama A Gente. Este vai focar nos agentes penitenciários.
O que mudou na sua rotina após o anúncio da possível indicação ao Oscar?
Cara, não mudou absolutamente nada. Aliás, a única diferença é que eu dei umas duas entrevistas além das que eu estou acostumado a dar. E eu estou tão envolvido com os dois próximos filmes que nem tenho tempo para ficar pensando nessas coisas. Ser indicado é ótimo e demonstra que seu trabalho está sendo reconhecido, mas acho bem difícil que eu fique entre os finalistas. Fui olhar os trailers dos outros dez concorrentes e tem coisa muito grande lá. Tem até filme do Ron Howard [o diretor ganhou o Oscar de melhor direção por Uma Mente Brilhante, em 2002]. Tem trabalho que custou milhares de dólares e o meu foi só 40 mil.
O filme foi produzido com alguma lei de incentivo, patrocínio ou dinheiro próprio?
A gente conseguiu um edital da lei municipal de incentivo à cultura aqui de Curitiba. Para a finalização, consgeuimos uma verba da RPC, afiliada da Globo aqui no Paraná, e que entrou como parceira no projeto.
Confira quatro fotos do filme que será exibido em Goiânia na programação da Mostra de Direitos Humanos, de 14 a 19 de dezembro.


