A saída de Flávio Peixoto do PMDB extingue no partido em Goiás seu último sopro de modernidade ou a possibilidade de falar em planejamento administrativo. Sem retorno possível, o velho MDB que inaugurou a era dos governos planejados com Mauro Borges Teixeira – Goiás ainda hoje tem suas marcas -, e Henrique Santillo, que implantou o primeiro sistema estadual de planejamento, este PMDB sem Flávio mergulha de vez no mundo da improvisação que tanto agrada Iris Rezende Machado.
Os jurássicos do PMDB devem estar satisfeitos. Fazer política requer muito mais que propor ações planejadas, executá-las prevendo o melhor aproveitamento dos recursos públicos, usar tecnologia e meios para fazer as melhores obras. Pensam eles, os arautos do passado – hoje sem mais ninguém para chateá-los com teorias e conceitos inúteis -, que chutar a canela ou o pescoço do adversário, e depois construir asfalto, contenta o cidadão-eleitor e lhes dá longevidade no poder. Não admitem, nem de longe, que há novas demandas na sociedade, e que isto pode explicar o dissenso cada vez mais profundo entre Iris e as urnas. A exceção, de duas vitórias em Goiânia, pode não passar disto, exceção. Quem pregou o carimbo de ultrapassado na testa do ex-governador por duas ou três vezes foi o eleitor goiano.
Para que não me acusem de lunático ou outra coisa, conto histórias objetivas de que participei, envolvendo Flávio Peixoto e Iris Rezende. Planejo fazê-lo em ordem cronológica.
Começo em 1983, primeiro ano do endeusado retorno de Iris Rezende à administração pública, como primeiro governador eleito na redemocratização. Eu era repórter na hoje falecida Folha de Goyaz, à época agonizante, e fui pautado para escrever uma matéria inaugural. Sabia-se que havia recursos federais para construção de rodovias em Goiás, obtidos a fundo perdido pelo governo de Ary Valadão, com seu poderoso amigo ministro da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva. Usando de seu prestígio popular, ligações pouco explicadas até hoje no meio militar e influência entre os parlamentares goianos, o então candidato ao governo pelo PMDB conseguiu segurar as verbas federais para que fossem liberadas depois, em seu muito provável governo, como de fato ocorreu.
A missão do intrépido repórter, então, era, na beira do encerramento do primeiro semestre de 1983, descobrir quais estradas seriam construídas em Goiás. Todos os caminhos levavam a Flávio Peixoto, secretário de Planejamento, e ninguém mais sabia sobre o assunto. Um dia o repórter descobriu por que: simplesmente o traçado das novas rodovias a serem pavimentadas só existia na cabeça do Governador, e em menor escala, de seu planejador, que, à custa de muita pressão, decidiu pôr no papel o planejamento para executar o grande volume de obras. Ou seja, o dinheiro estava em caixa, mas o projeto executivo das obras ainda vagava no limbo político.
Outro episódio eloquente que vivenciei com as duplas Flávio/Iris, planejamento/improviso, deu-se já no segundo governo de Iris Rezende, iniciado em 1991. Participava de uma entrevista com o governador, no
Jornal Opção, quando Iris foi instado a falar sobre planejamento administrativo. Pensou um pouco e decidiu abrir seu coração contando uma história. Tinha ido numa cidade para inaugurar certa obra e sentiu desde o palanque que a reação popular foi pequena, pouco entusiasmada. Já descido do palco, consultou seus aliados sobre as palmas pouco efusivas. “É que este povo quer é mais água tratada, e não outras obras”, disse um áulico mais ousado. Mandou botar água, fez novo palanque, foi aplaudido. E saiu convencido de que planejar obras é uma bobagem. Que isto não substitui nunca o contato com as lideranças intermediárias e a sensibilidade única que emana da experiência política, nunca de estudos e avaliações técnicas. Há quem veja nisto, até hoje, o vanguardismo de Iris. Há quem explique a partir daí suas derrotas. É avaliar os fatos.
Flávio Peixoto avaliava os fatos, a favor de Iris. Outro episódio para mim marcante foi na campanha de 1998, numa entrevista de Flávio Peixoto também ao Jornal Opção. Impossibilitado de mudar a forma de pensar do administrador Iris Rezende, adaptar seu pensamento aos novos tempos, Flávio usou todo seu instrumental acadêmico e experiência política para tentar adequar o velho discurso do asfalto à modernidade. Dourou o quanto pode a pílula para construir a ideia que às vésperas do século XXI, governar ainda era construir estradas, como queria Washington Luís nos albores do século XX.
Transformou em escopo de governo tirar as pessoas da poeira, permitir o trânsito de veículos de transporte entre uma cidade e outra, como se à época os mutirões na roça pudessem ser organizados com caravanas de carros, ao invés das procissões originais. Uma limitação tacanha, admitamos, a um Goiás que aspirava crescer rumo à industrialização e se abrir a novas culturas, novas formas de ver e de pensar o mundo.
Flávio Peixoto fora do PMDB representa o fim desta ideia de tentar enxergar o mundo com os olhos do presente, ao invés de ficar vivendo das glórias do passado. Para não falar destas glórias, esqueçamos um tempo em que o PMDB tinha Mauro Borges, Henrique Santillo e Nion Albernaz em seus quadros.
A mim, o simbolismo da saída do último formulador do PMDB de Goiás lembra mais um título de artigo escrito pelo amigo Nilson Gomes, ainda no início da campanha eleitoral para o governo de Goiás, em 1998: “A era Iris já era”, vaticinava Nilson. Num momento em que o ex-governador ainda se alimentava na imagem de imbatível no campo eleitoral, e infalível na ação administrativa e política.
Com a saída/expulsão de Flávio Peixoto, vai-se a última pomba, diria o poeta Raimundo Correia, suspirando o tempo que passou.
*Rogério Lucas é jornalista.