Fiquei feliz com a reação da sociedade ao descalabro que foi o foguetório na reinauguração do Parque Zoológico de Goiânia. No último domingo, na festa para comemorar a reabertura desse espaço que, na minha opinião, a existência é uma excrecência, foi realizada uma queima de fogos de artifício por cerca de dez minutos ao final do show infantil da Galinha Pintadinha, ao lado do Lago das Rosas. Por conta dessa irresponsável atitude, um integrante da Associação pela Redução Populacional e Contra o Abandono de Animais (Arpa Brasil) fez um boletim de ocorrência no 1º Distrito Policial. A alegação é de que o barulho dos rojões estaria causando transtornos aos animais, moradores e pacientes internados nos hospitais da região.
O foguetório foi tão infeliz que o próprio prefeito Paulo Garcia o classificou como “inoportuno e inadequado”. O diretor do zoo, Raphael Cupertino, alegou que não sabia da queima de fogos e não escondeu seu constrangimento com a situação. Ou seja, ambos se esquivaram da responsabilidade. E essa esquiva agora é estratégica, pois eles sabem que tal ato foi pessimamente visto pela sociedade. O problema é que o responsável pela burrada terá que aparecer. A instalação dos foguetes para queima de dez minutos não é feita de forma discreta. Demanda uma boa estrutura. Da mesma forma, é preciso uma atitude coordenada para que isso aconteça. Logo, fica claro que não houve a menor preocupação com o bem estar dos animais. O espalhafato ruidoso foi a prioridade de quem coordenou a festa de reinauguração. E a culpa é de quem? Nome aos bois, por favor!
Quando um cara estoura um foguete, independente do local e da motivação, já demonstra gosto duvidoso. É uma coisa ultrapassada, que causa transtorno geral. Acorda os bebês, aumenta a poluição sonora das cidades, assusta animais domésticos, aumenta a poluição atmosférica, atesta cafonice. Seja em festa junina, comemoração de futebol ou eventos públicos, fogos de artifício são prova de que pessoas bregas estão por ali. No caso do Zoológico, a situação é agravada inúmeras vezes. Em uma atitude prudente, a direção do parque limitou as visitas do público, para não aumentar o estresse dos animais que estavam há quase três anos sem serem bizarramente expostos. Todo esse discurso de zelo foi para o lixo com a queima dos fogos. Estou certo de que os dez minutos de ruídos agressivos elevaram a tensão dentro das jaulas a níveis alarmantes. Além da crueldade de mantermos os animais enjaulados, ainda os submetemos à tortura auditiva. Olha o quão “humanos” somos…
Tenho certeza que os foguetórios, assim como os zoológicos, serão observados no futuro como um circo de horrores que nós, das sociedades primitivas, praticávamos. O mesmo olhar de espanto com que vemos as atrocidades que a Igreja Católica cometeu na Idade Média aos supostamente infiéis ou pagãos, o mesmo olhar horrorizado que temos quando vemos o grotesco dos espetáculos das arenas romanas, a mesma vergonha que sentimos quando lemos sobre os absurdos da escravidão no Brasil nos serão direcionados. Já causa espanto nosso poder público comemorar a abertura de uma prisão de animais (chamar de zoológico é mero eufemismo). Esse espanto é elevado à enésima potência quando a festa é feita com fogos que agridem os animais. Que vergonha!