Relaxar e gozar. Foi isso o que a Marta Suplicy mandou e é isso o que todo mundo busca na hora de ir para a cama. Só que está cada vez mais difícil conseguir. A lista de exigências anda tão grande, é tanto modismo e contação de papo, que homens e mulheres acabam sofrendo de TPS (Tensão Pré-Sexual).
A tal lista de exigências é enorme. É preciso ter corpão, ser multiorgásmico, conhecer as posições do Kama Sutra, entender de massagem e óleos eróticos, ser antenado e querer freqüentar casas de swing. Não basta transar. É preciso transar muito. E gozar. Intensamente. Loucamente. Sempre.
A julgar pelas revistas femininas, o ato sexual agora virou uma performance digna do Cirque du Soleil. Na edição desse mês de uma delas, a matéria com dicas para sair da rotina sugere que a mulher plante bananeira, ponha prendedores nos mamilos e mude as cores da parede para melhorar o desempenho – juro por Deus!
Uma outra, que trouxe há algum tempo uma entrevista com a cantora Sandy, virou motivo de tormento na vida da minha conhecida. Como a artista afirmou que é possível ter prazer numa posição sexual que a maioria das mulheres não gosta, agora o namorado quer que ela também libere geral.
“Se até a Sandy, que é a maior santinha, faz, eu também tenho de fazer”, reclama a moça. Quando pergunto se ela vai topar fazer algo que detesta, a resposta vem no ato. “É claro! A concorrência anda terrível, amiga. Se eu não aceitar, vem outra rapidinho e topa na hora”.
Como assim? Então quer dizer que você é uma empresa de prestação de serviços sexuais? Se seu namorado não ficar satisfeito ele rescinde o contrato e chama outro fornecedor? Você é uma funcionária com carga horária mensal e metas para bater? Se não conseguir é demitida por justa causa?
A parte do modismo e da contação de papo também anda difícil de engolir. Esses dias eu estava no salão e ouvi duas clientes conversando. Uma delas aconselhava a outra a frequentar casas de swing para esquentar o casamento. Dizia que não havia coisa melhor. “Você precisa ser moderna”, bradava, com autoridade.
Lembrei de uma amiga casada que fez isso recentemente. Me ligou arrasada no outro dia. “Foi estranhíssimo. Um homem com quem você não tem a menor intimidade te agarra, enquanto você assiste seu marido ser seduzido por outra mulher. E o que é pior: tendo de fazer cara de paisagem, fingindo que adorou”, contou.
Na teoria, funciona que é uma beleza. Na prática, nem sempre. Meu amigo que o diga. Depois de passar meses paquerando a funcionária mais bonita do escritório, enfim começou a namorar a moça. Uma loura linda, de parar o trânsito, a chamada “kit completo” (cabelo, corpo e rosto perfeitos).
Na primeira transa dos dois a mulher chegou arrasando. Fez um strip-tease daqueles e, em poucos minutos na horizontal, começou a gemer e urrar. Falou para o meu amigo que ele podia xingar bastante e bater sem dó, porque ela sabia que “todo homem gosta mesmo é de sexo sujo”. Resultado: no dia D, ele falhou na hora H.
“Como ela pôde gemer daquele jeito, se eu mal havia encostado nela? Não sou retardado! E que história é essa de sexo sujo?”, queixou-se ele pra mim, enfurecido pela encenação forçada. “Se eu gostasse de atriz pornô, teria locado um DVD e ficado sozinho em casa assistindo”, resumiu.
Pois é. É por essas e outras que acho que tem boi na linha. Homens e mulheres andam tensos por não conseguirem colocar em prática todas as invenções de moda do momento. Sentem-se diminuídos por causa da fantasia de que, na cama do vizinho, a coisa deve estar bem melhor e mais quente. Pura ilusão.
Para a transa ser boa hoje é preciso ter o corpo da Julianna Paes, o rebolado da Shakira e o sex appeal da Angelina Jolie. A barriga de tanquinho do Malvino Salvador, a pegada do George Clooney e o charme do Brad Pitt. É gente demais para levar para a mesma cama. Algo me diz que essa suruba não vai funcionar.
Talvez eu esteja ficando velha. É que sou do tempo em que descolado mesmo era ir para a cama com a pessoa que você estava a fim, na hora que os dois tivessem vontade e pudessem ser eles mesmos, um com o outro. Sem necessidade de autoafirmação, sem falas e poses decoradas.
Não acho que a sedução comece e termine na cama. Ela vem quando o outro te elogia de repente, por uma razão qualquer. Quando ele te ouve e faz um cafuné num momento difícil. Quando ele te dá um daqueles abraços de urso, de puro acolhimento, sem dizer nada, sem julgamentos.
Longe de mim ser contra a criatividade e a ousadia no sexo. Fazer tudo sempre igual é dose. Mas acho que só é legal variar se for por vontade pessoal, nunca por pressão social. As pessoas podem ser muito espertas na hora de dar palpite na sua vida sexual, mas no final das contas estão pouco se lixando se você gozou ou não.
Se depois de muito se contorcer, acender velas aromáticas, usar técnicas sadomasoquistas e fazer caras e bocas não tiver sido bom pra você, não se frustre. Ao contrário dos filmes de Hollywood, o segredo do prazer não está na boa interpretação do script. Está no improviso, no inesperado. Quando mais espontâneo, melhor.