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Galo cego e pintinho morto

31.01.2015 - 08:14:47
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Goiânia – Gosto de bichos mais do que eu devia. Estou certo que isso não me faz bem. Quero adotar tudo quanto é cachorro que vejo na rua, odeio passarinho em gaiola, todas as galinhas que crio têm nome, além de risco zero de acabar em uma panela. Em casa, tenho cachorros e galinhas. E também dou comida para os passarinhos das redondezas comerem no meu quintal. Quando algum faz ninho em uma planta ou dentro de um lustre (o que acontece todo ano), a prioridade passa a ser zelar dos filhotinhos que ali estão até baterem as asas. O problema é quando as enfermidades dos animais chegam. Pior ainda quando vêm a óbito. Fico baqueado de verdade. 

Eu tenho um galo cego, o Barnabé. E agora ele está ficando louco. Ou surdo. Não sei o que está acontecendo direito. Não sou especialista em aves. Ele está perdendo o senso de orientação. O Barnabé era sadio e encrenqueiro. Só aceitava que eu chegasse perto do, digamos, galinheiro – todos são criados soltos e têm o quintal todo para andar, mas um canto onde sempre coloco o milho e está montado o poleiro onde dormem denomino de galinheiro. Com pouco mais de um ano de vida, começou a ter catarata, acredito. Hoje não enxerga nada.
 
Ele se virava com a audição e aprendeu a viver com a deficiência visual. Continuou arrumando encrenca com os cachorros e se ouvisse voz estranha que não a minha. Vinha para cima com os esporões. A bravura ainda estava ali. Hoje não dá conta mais disso. E de nada. Preciso levá-lo até a comida. Dorme em qualquer lugar do quintal. Está completamente desorientado. Ele vai viver até quando der conta. Nunca irá para a panela. Corta o coração vê-lo tão debilitado.
 
Para piorar tudo, o pintinho que estava criando morreu. Quando cheguei de férias, minha sogra havia presenteado minha filha mais nova com um pintinho. Elas foram comprar milho para as galinhas em uma loja de animais e a baixinha se encantou por um pintinho preto na gaiola. O vendedor até se impressionou: "é a primeira criança que pede um pintinho preto e não um amarelinho". É o sangue metaleiro. Ela teve a quem puxar. Genética é coisa séria.

Uma de nossas galinhas que é preta se chama Macumba, por motivos óbvios. Para combinar, batizei o filhote recém-chegado de Maloca. Uma de nossas cachorras, a Lolla, o adotou. Uma graça. Ela cuidava do pintinho como se fosse sua cria. Hoje de tarde, o encontrei morto no quintal. Não sei se uma das galinhas implicou com ele, o excesso de zelo da Lolla ou o Toby (outro cachorro que está passando uns dias na minha casa) foi o responsável pela morte. E é até melhor que eu não saiba quem é o autor. Não vai me deixar com raiva do bicho. Fiquei super para baixo.

Certa vez, entrevistando para uma reportagem um militar da reserva do Exército, perguntei se ele já havia presenciado ou participado de cenas de tortura durante a ditadura. Ele negou. Questionei então como era feita a seleção do pessoal fazia esse serviço sujo. Ele respondeu: "os caras escolhiam aqueles que já eram maus de natureza, gente que atirava em cachorro ou gato na rua só para ver o bicho agonizar". Compreendi a relação instantaneamente. Quem sente prazer em ver um animal sofrendo, é capaz de não se incomodar e até achar legal espancar até a morte um ser humano. Definitivamente, esse não é meu time.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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