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Gente de coleira

13.02.2012 - 15:42:55
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O Carnaval está aí e, com ele, o terror dos ciumentos e possessivos de plantão. Para quem se morde de ciúmes, pouca roupa, muita bebida e clima de sedução no ar são uma verdadeira bomba. Há quem queira colocar uma coleira no outro, para mostrar que ele já tem dono e espantar os engraçadinhos de plantão.
 
Quem não se lembra da Luma de Oliveira usando uma coleira em plena Sapucaí, com o nome do ex-marido Eike Batista bordado com cristais? Eu não me esqueço. Mas não são só os homens que tentam enquadrar suas parceiras. Conheço muitas mulheres que querem encoleirar seus companheiros como um bichinho de estimação. 
 
Gente ciumenta demais me dá agonia e pena por várias razões. A primeira delas é que essas pessoas passam tanto tempo prestando atenção na vida do outro, analisam tanto cada passo e cada respiração do parceiro, que dão a impressão de que devem ter uma vida própria muito ruim.
 
Imagino que uma pessoa que é neurótica ao ponto de seguir a vida do parceiro o tempo inteiro, que dá piti para saber a senha do e-mail e das redes sociais do outro, que exige saber aonde ele foi, com quem conversou e sobre o quê conversou, provavelmente não deve ter amigos, emprego legal nem rotina interessante. 
 
Se acha que o par está prestes a abandoná-lo a qualquer momento, por qualquer bobagem, é porque no fundo também não se julga uma pessoa interessante. Não se garante de jeito nenhum. Se vê qualquer periguete xexelenta ou qualquer cara boçal como ameaça grave é porque a autoestima está abaixo de zero.
 
Tem a história da projeção também, ou seja, o outro te acusa de coisas que você não teria coragem de fazer, mas que ele teria. Pode estar desconfiando demais de você, te perseguindo incansavelmente, para desviar a atenção dele mesmo, que, na verdade, é quem anda colocando uns bons galinhos na sua cabeça. 
 
Sem falar que a sanidade mental de uma pessoa dessas não deve andar lá essas coisas. Você acha que o outro te trai com qualquer um que passe na frente e mesmo assim está disposto a dividir sua cama, suas finanças, a criação dos seus filhos e seus segredos mais íntimos com ele? Quer essa pessoa a todo custo? Eu, hein…
 
Seja lá qual for a razão que leve um ser humano a acreditar que é dono do outro, os efeitos colaterais desse tipo de reação são sempre terríveis. Um deles é a supervalorização do parceiro. O cidadão é o maior perna-de-pau de pelada de várzea, mas você gruda tanto nele, que o cara fica se achando o próprio Neymar.
 
A mulher é mais sem graça que arroz e alface, mas você vê tantos homens “enlouquecidos” por ela, que a moça passa a se sentir a própria Juliana Paes. E aí, com o passe megavalorizado, a pessoa te esnoba sem cerimônia, começa a acreditar que é mais importante que a bala que matou Kennedy.  
 
Outro efeito do ciúme doentio é que a pessoa pode querer te trair de raiva. Ela faz tudo certinho, nem olha para os lados, mas você não acredita. Você faz escândalo e aporrinha o pobre ser humano sem parar. Então ele desiste de ser legal e te chifra sem dó, afinal, se é isso o que você acha que ele faz, é isso o que ele fará. 
 
Sem contar que o ciúme mata a autenticidade do outro, o que é muito triste. A mulher é exuberante, charmosa, cheia de vida. Mas o parceiro começa a podá-la e ela passa para de conversar, passa a se vestir como uma idosa e nem sorri mais. Um dia, ele descobre que ela não é a mulher por quem ele se apaixonou e quer ir embora. 
 
A mesma coisa acontece com um homem alegre, cheio de amigos e sociável. A mulher passa a reclamar de tudo, impede que ele se aproxime de quem quer que seja, e o cidadão fica mal-humorado, chato e agressivo. Uma hora ela não enxerga mais  aquele por quem se apaixonou e também quer ir embora. 
 
O grande barato de uma relação são justamente as diferenças. Ter ao lado alguém que conhece outras pessoas, tem outros interesses no trabalho e na vida pessoal, pensa diferente e sente diferente é o que nos faz crescer, nos ensina a ser tolerante, alarga a nossa visão de mundo e traz um sopro de vida à nossas velhas ideias. 
 
Transformar seu parceiro num cãozinho adestrado não fará nem a você nem a ele felizes. Seres humanos têm vontade própria e não obedecem aos comandos de “deita”, “rola”, “junto” e “quieto”. Por mais que o amem, não vão querer andar de coleira nem lamberão suas mãos se você lhes der uma surra ou um berro. 
 
Se quem está do seu lado for mesmo um “cachorro” ou uma “cachorra”, ainda que preso numa coleira, vai arranjar um jeito de morder sua mão. Se não for, vai se cansar dos maus tratos e procurar outro canto para ficar. Afinal, quem roeu o osso por tanto tempo, merece comer o filé em grande estilo. 
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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