Dr. Francisco Eduardo Lima
Um problema de dimensões continentais. Considerada a segunda causa de cegueira reversível no mundo, o glaucoma atinge somente no Brasil cerca de 1 milhão de pessoas. É como se a metade da população de Curitiba, capital do Paraná, tivesse a doença. Na prática, esse número deve ser ainda maior, já que estudos comprovam que pelo menos 50% dos glaucomatosos sequer sabem que têm a doença. Estima-se que, em 2020, pelo menos 11,1 milhões de pessoas terão esse problema em todo o mundo.
Entre os desafios para os oftalmologistas está descobrir exatamente qual o melhor tratamento para cada tipo de paciente. Há vários estudos que relatam que entre as principais ações do médico está a detecção do estágio do glaucoma, e não apenas descobrir a existência da doença. Entre as formas de tratamento do glaucoma estão a utilização de colírios, cirurgias convencionais e a laser. Em alguns casos, há combinações das formas para se tratar o problema, que mesmo sem sintoma, pode levar à cegueira.
Como a doença é irreversível, é muito importante o diagnóstico e o tratamento do glaucoma a tempo. O recomendável é que pessoas que se enquadram no chamado grupo de risco da doença que inclui história familiar de glaucoma, idade superior a 40 anos, pessoas da raça negra e míopes, devem passar por consulta médica pelo menos uma vez ao ano. Na classe oftalmológica, há um consenso sobre a meta central a ser alcançada no tratamento do glaucoma: diminuir a pressão intraocular – na maioria dos casos, com uso de medicações tópicas – e determinar uma pressão intraocular alvo, de acordo com o estágio da doença em cada paciente.
Mas para que o tratamento tenha de fato eficácia, é importante que haja, por parte do paciente, o compromisso diário da aplicação do colírio. O fato de a doença ser assintomática faz com que muita gente, por diversos motivos, como falta de tempo, deixe a medicação um pouco de lado. Por não ter sintomas, a doença muitas vezes não causa grande comoção ao próprio paciente. Muitos não conseguem ter a compreensão de como uma doença que não causa dor necessita de um tratamento tão disciplinado.
Metade não cumpre determinação médica
Sabe-se que de 100 pacientes cegos por glaucoma, 50 chegaram e este ponto por não usar corretamente os medicamentos ou não comparecer as consultas de acompanhamento, ou seja, não cumpriram as determinações do médico. Os outros 50 ficaram cegos por tratamento médico inapropriado. Isto mostra o quanto é importante a aderência ou fidelidade do paciente ao tratamento.
Para evitar isso, os profissionais têm se empenhado cada vez mais em garantir a fidelização do paciente ao tratamento proposto. O sucesso do tratamento do glaucoma depende ainda do diagnóstico precoce da doença. Um dos principais avanços no diagnóstico do glaucoma é a caracterização do glaucoma pré-perimétrico, estágio em que a doença ainda não causou perdas de campo visual. O diagnóstico do glaucoma pré-perimetrico faz-se através da constatação de lesão glaucomatosa na camada de fibras nervosas da retina, seja através de fotos do fundo de olho ou analisadores computadorizados da camada de fibras nervosas da retina como OCT, HRT e GDx.
Com a devida fatia de responsabilidade – tanto para o médico quanto para o paciente – é possível alcançar resultados animadores e, com isso, diminuir o número de pessoas que podem perder a visão em todo o mundo. Uma pessoa cega torna-se um fardo para a família e para a sociedade. É possível alcançar uma boa qualidade de vida mesmo com a doença. A consciência do paciente tem um papel fundamental neste resultado.
Dr. Francisco Eduardo Lima
Professor Afiliado da Universidade Federal de Goiás (UFG)
Vice-Presidente da Sociedade Brasileira de Glaucoma
Chefe do Departamento de Glaucoma do CBCO, Goiânia, GO