Quem diria? Goiânia, essa cidade sem calçadas, sem árvores nas vias públicas, onde pra todo lado se vê lavadores “informais” de carro usando a nossa água e contaminando nosso solo. Uma cidade com ruas absolutamente entulhadas de carros e motos (em trânsito ou estacionados), em que os pedestres não têm vez, onde os pontos de ônibus se encontram em péssimo estado e carecem de informações básicas sobre as linhas, e cujo transporte coletivo mata usuários nos terminais.
Pois é essa mesma cidade que o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) escolheu para servir de piloto, no Brasil, a um projeto chamado Plataforma Cidades Emergentes e Sustentáveis. Para tanto, o órgão considerou o bom IDH apresentado por Goiânia, os projetos de áreas verdes desenvolvidos pelo município, e seus indicadores sociais e econômicos “em evolução”.
Na opinião de Irene Guimarães Altafin, especialista do BID responsável pelo projeto do parque linear Macambira-Anicuns, Goiânia “se preocupa com a urbanização” (será?) e tem inclusive trabalhos que podem servir de exemplo para outras cidades, como a gestão de áreas verdes. “Ao mesmo tempo, os parques estão sujeitos a problemas como o lançamento de entulho”, diz. “Os problemas da cidade são comuns a outros centros urbanos, muito devido à acelerada migração do campo”.
A partir dos encontros realizados pela Seplam (Secretaria Municipal de Planejamento e Urbanismo) desde segunda-feira (01/08), no hotel Address, o BID em primeiro lugar irá estabelecer qual é o nível de sustentabilidade da cidade. Para isso, aplicará uma metodologia própria. Recém criada, ela se baseia em diversos indicadores que serão organizados nas cores de um semáforo, de acordo com o diagnóstico alcançado.
Com a metodologia, o BID quer poder comparar as cidades e favorecer o compartilhamento de boas práticas entre elas. Dados em mãos, outro objetivo é traçar junto à Prefeitura um plano de ação, a fim de definir medidas prioritárias que devem receber o apoio do BID – com suporte técnico e, eventualmente, financiamento.
As discussões, que terminam nesta quinta (04/08), ocorrem em três planos: ambiental, urbanístico e de gestão pública. Acompanhei somente o ambiental.
Mudanças
A Prefeitura sinaliza com alguns projetos interessantes. Será que a presença do BID é um motivo a mais para que eles saiam do papel? Um dos planos é a criação de uma cartilha que orienta a sociedade para a padronização das calçadas, garantindo área permeável e acessibilidade. Outro é a recuperação do Centro (mais uma vez), embarcando em recursos do PAC das Cidades Históricas. Na apresentação da Seplam, falou-se na preservação do nosso patrimônio art déco e na redução da poluição visual.
Já o atual presidente da Amma (Agência Municipal de Meio Ambiente), Pedro Henrique Lira, anunciou na terça (02/08) que está nas preliminares para elaborar um inventário de emissão de gases de efeito estufa, o que é uma bela novidade. Com ele, espera-se conhecer quanto dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O) produzimos em Goiânia, e também quais são suas principais fontes.
Consequentemente, teremos condições de planejar a redução dessas emissões e de nossa contribuição para o agravamento das mudanças climáticas. É a primeira vez que vejo alguém falar do assunto em Goiânia (salvo algumas breves menções, nos jornais), seis anos depois da entrada em vigor do Protocolo de Quioto.
Outra fala interessante foi a do representante do Crea-GO, Marcos Teixeira, tratando da necessidade de tornar permeáveis áreas extensas da cidade, a fim de garantir a recarga dos cursos d’água. No mesmo sentido, a pesquisadora Eufrosina Terezinha Leão Carvalho, doutoranda pela UnB (Universidade de Brasília), apresentou soluções técnicas práticas de como isso é possível, através do uso de piso e tubulação drenantes, poços de infiltração e outros recursos.
É muito bom ver que as discussões existem e melhor ainda seria vê-las implementadas. “Podemos fazer de Goiânia uma cidade modelo para o mundo”, disse Pedro Henrique, da Amma. Uau. Temos um longo caminho a percorrer.