Goiânia – Qualquer um minimamente esclarecido sabe que essa alteração
do Plano Diretor de Goiânia é escabrosa. Interesses que não colaboram com a
coletividade foram determinantes na votação acachapante que o Paço Municipal
conseguiu na Câmara dos Vereadores. Estudantes universitários tentaram uma
mobilização pela mudança, o movimento social de cunho ambiental fez a grita. Nada
adiantou.
O trator do Executivo foi cruel e implacável: atropelou as vozes
dissonantes da população, a resistência dos vereadores que votaram contra e a
honra dos eleitos do parlamento municipal que tal qual cordeirinhos se ajoelharam
frente à Prefeitura. Se não ao Executivo, a outros interesses ainda menos
republicanos. Vai saber.
Money talks, bullshit walks, dizem os gringos. Adaptando
mais ou menos ao nosso contexto, o dinheiro manda e obedece quem tem juízo. Ou
mandato. É claramente perceptível que o maior beneficiado pela alteração não é
a capital, e sim o capital. Goiânia realmente é uma cidade sustentável.
Sustentando a indústria automobilística, os grandes empreendimentos
imobiliários, as empreiteiras, as empresas de transporte coletivo inoperantes,
as igrejas… Vergonha.
A situação é tão vexatória que nenhum dos 24 vereadores que
votaram em prol da proposta de alteração teve a cara de subir no púlpito e
fazer a defesa. Da mesma proporção que falta vergonha, falta escrúpulo.
Abaixaram a cabeça na alta. E não é uma questão de divisão entre situação e
oposição. Não se trata disso.
Dos que votaram a favor, temos um mix das mais diversas tendências
partidárias. Da mesma forma do outro lado, dos sete que bravamente votaram pela
coletividade. A divisão não é situação e oposição, ela é entre quem defende o
coletivo e quem defende a grana. Cada um joga no time que mais lhe apraz. Democracia
é isso aí.
A campanha iniciada pela Rádio Interativa FM #vetaprefeito e #vetaPauloGarcia, depois da sugestão do ouvinte Adsson Luz, ganhou
as redes sociais. Fui um entusiasta de primeira ordem. Mas nós da rádio sabemos
que o movimento é ingênuo, pois o projeto que partiu do Paço volta da Câmara para
ser sancionado pelo prefeito da mesma forma que saiu.
Será que todas as polêmicas
de imprensa e audiências públicas na UFG e OAB não foram capazes de sugerir
nada relevante ao projeto? Realmente estamos diante de um texto obra-prima! Só
que não. Já estava tudo amarrado desde o início. Esse trâmite foi meramente protocolar.
Pura groselha para cumprir o rito, sem a menor intenção de colher algo propositivo.
Mas se a mobilização não tem poder de resolução, ao menos tem poder de
constrangimento. Nesse caso, vou até o fim. Continuo queimando tudo até a
última chance.
Quando o Marista estiver travado, quando a água do João Leite
e Meia Ponte estiver inviável para o consumo humano, quando a região Norte da
cidade estiver entulhada de indústrias, quando tiver uma baita igreja gigante e
barulhenta na porta da sua casa, lembre-se desse momento da história de nossa
cidade, respire fundo e se conforme: “ao menos, moro em uma cidade sustentável”.