Aline Mil
Cores, traços fortes, pinceladas rápidas. As telas do goiano Rodrigo Flávio refletem bem a personalidade inquieta do talentoso artista plástico que, aos 37 anos, já não tem mais ânimo ou vontade de expôr seus trabalhos em Goiânia. “Podemos contar o número de galerias de arte goianienses em uma mão e ainda sobrariam dedos”, analisa Rodrigo. A última exposição do artista na Capital foi em dezembro de 2009, na Galeria Marcos Caiado, fechada no início de 2011.
Com a segunda viagem este ano para Madrid agendada para outubro, a intenção de Rodrigo é partir para o mercado estrangeiro, buscando a valorização de seu trabalho e o intercâmbio cultural com outros artistas e públicos. Tomar essa decisão não parece deixar o artista realizado mas, sim, inconformado. “O maior bem cultural hoje do goiano é o carro. A maior parte da elite do nosso estado hoje consome arte apenas como objetos decorativos”, desabafa.
Poluição visual
Por mais que seja reconhecido hoje como um dos principais nomes da arte contemporânea do Estado, Rodrigo tece críticas ao mercado em Goiás e não consegue esconder sua decepção com a falta de incentivo e o público inexpressivo para as artes plásticas. “Goiânia, visualmente, está poluída, está feia. Anúncios, outdoors, praças cortadas, viadutos mal planejados. Temos um centro cultural [Oscar Niemeyer] inacabado que difamou Goiás para um dos principais arquitetos do País. São vários os absurdos”, lamenta.
A artista plástica Fabíola Morais divide o ateliê com Rodrigo e compartilha da opinião de que ainda falta cultura visual para o goianiense. Ela que, assim como o amigo, entrou no mercado no início dos anos 1990, pontua que a elite em nossa capital ainda não está preparada para distinguir o autêntico do fake. “Arte é apenas objeto de decoração para a maioria da elite em Goiânia. É um subproduto. Para essas pessoas, comprar um quadro produzido em escala em uma loja de departamento e uma tela singular de um artista não faz a menor diferença”, destaca Fabíola.
Amadurecimento
O ateliê de Rodrigo Flávio fica numa sala independente de um sobrado, no Setor Sul de Goiânia. Muitos tubos de tinta a óleo, pincéis, espátulas, esculturas, um pequeno jardim a céu aberto e um toca-discos Gradiente fazem parte do ambiente onde o artista gosta de passar as tardes e madrugadas, pintando, esculpindo e desenhando. Entre os bolachões favoritos para a trilha sonora do trabalho estão os do inglês David Bowie e muito Tropicalismo.
Pela primeira vez se arriscando a usar a tinta a óleo sobre papel Fabriano ao invés das telas, Rodrigo percebe um momento mais maduro em seu trabalho. “Antes, meu foco eram as cores primárias. Hoje, trabalho com toda a palheta, misturo tintas e não apenas as sobreponho. E me encantei pelas possibilidades da espátula”, conta o artista.
Para ele, que estava há mais de três meses apenas trabalhando sobre o papel 100% algodão, o material é muito curioso porque as cores se destacam mais e ganham vida. Durante a visita do AR ao local, foi a primeira vez que Rodrigo retornou ao antigo padrão das telas, mas ainda trabalhando com seu mais novo preferido instrumento: a espátula.
Segundo ele, a passagem dos pincéis para a espátula deu a Rodrigo um novo ritmo. “Me lembro quando fazia uma disciplina de ilustração com a professora Ciça Fittipalti, no antigo Instituto de Artes da UFG, e ela trabalhava técnicas com os alunos para que soltassem o traço. Comigo, sempre foi diferente. A espátula, inclusive, tem me ajudado a conter a euforia”, conta o artista que passou por disciplinas dos cursos de Design Gráfico e História na Universidade Federal de Goiás.
Inspirações
Rodrigo afirma que toda a inspiração de seus trabalhos vem do conjunto de informações que o artista recebe todos os dias, seja na rua, com os amigos, na arquitetura de sonhos ou, principalmente, nas viagens que adora realizar.
Entre os artistas goianos que Rofla – como é conhecido pelos amigos – mais admira estão Siron Franco, Marcelo Solá e o alemão que se radicou em Goiás Gustav Ritter que, junto ao italiano Giuseppe (Frei) Confaloni, inaugurou a primeira Escola Superior de Artes de Goiás.
Uma curiosidade: até julho deste ano, Rodrigo não era adepto a nenhuma rede social e cultivava certa aversão à tecnologia. “Confesso que tinha um pouco de resistência, mas estou me entendendo com as novas possibilidades de inspiração e estudo”, sorri o artista, que agora mantém um smartphone sempre por perto.
Para conhecer o ateliê de Rodrigo Flávio e saber mais sobre o trabalho do artista, assista abaixo ao vídeo produzido pelo AR durante nossa visita ao espaço: