PAISAGEM DE TRECHO DA AVENIDA GOIÁS NO DOMINGO (9/8) (FOTO: MÔNICA PARREIRA)
Sarah Mohn
Goiânia – Mesmo para quem nem era nascido, algumas campanhas eleitorais fizeram tanto sucesso à época que até hoje é possível recordá-las.
“Lulinha paz e amor (Luiz Inácio Lula da Silva, 2002)”; “Tá certo, Paulo Roberto (Paulo Roberto Cunha, 1990)”; “Caçador de Marajás (Fernando Collor de Mello, 1989)”; “O Tempo Novo (Marconi Perillo, 1998)”; “O povo no poder (Iris Rezende, 1982)”; “Varre, varre, vassourinha (Jânio Quadros, 1960)”. E por aí vai.
Quando bem trabalhado, o marketing político cai no gosto popular e vira case de sucesso. Seja pela comicidade, pelo slogan criativo, pelo jingle divertido, pela temática adequada.
Nesse rol de lembranças políticas, considero que a estratégia de marketing da campanha do prefeito Paulo Garcia à reeleição, em 2012, também pode se enquadrar numa linha de destaque.
Não votei nele, não voto no PT. Nunca sequer votei no Lula, como a maioria esmagadora da população fez. Aliás, meu único voto nessa legenda foi dado à deputada Marina Sant’anna, mais por admiração à candidata do que pelo partido ao qual ela pertence.
Mas confesso que admirei a qualidade e a criatividade da comunicação daquela campanha de Paulo Garcia. “Goiânia, Cidade Sustentável”. Temática ousada, moderna e atual. Comunicações on e off-line muito bem integradas. Foi uma receita de sucesso. Mas só. Tudo não passou de propaganda.
A gestão do prefeito tem mostrado que aquele marketing eleitoral nada mais era do que proselitismo político. Até agora, com dois anos e meio de Paulo Garcia reeleito, ainda não vemos em Goiânia nada de cidade sustentável.
O que há de ações sustentáveis por aqui, prefeito? A pequena porção de ciclovias, que não atende a demanda de transporte alternativo? O permanente incentivo ao uso de carro próprio como meio de locomoção?
A ideia de fechar ruas aos fins de semana para a prática de esporte e lazer é maravilhosa e fundamental, mas bicicletas por aqui estão longe de serem priorizadas como opção de mobilidade.
Paulo Garcia sequer cogita iniciar a construção de metrô na capital. E confirmou isso a mim, em entrevista concedida ao jornal A Redação no mês de maio. “Metrô é muito caro e, para a demanda que nós temos pelo transporte coletivo, o BRT e o VLT são soluções que se antecedem ao metrô. Nós temos recursos para isso? Não temos.”
Não temos recursos, então fim de história? A melhor saída é abortar a ideia? Para o prefeito, infelizmente, parece que desistir é mais fácil do que ter coragem de tentar.
Goiânia não é uma cidade sustentável e não caminha nesse sentido. Goiânia é uma cidade impermeabilizada e sua administração não se preocupa com a permeabilidade do solo.
Goiânia não é uma cidade sustentável, se serviços essenciais, como a coleta de lixo, volta e meia deixam de ser prestados. Eu, particularmente, não aguento mais ler nos jornais denúncias de que o lixo não é coletado no bairro x ou y.
Goiânia não é uma cidade sustentável, se mantemos até hoje o Rio Meia Ponte como um dos mais poluídos do país. Ou se o Aterro Sanitário de Goiânia vem poluindo o lençol freático com chorume. Sem contar nos lagos imundos que figuram nos parques da cidade.
Ah, os parques. Nos últimos anos, os parques em Goiânia têm ficado meses sem manutenção. Fiquei abismada com o tamanho do mato no Parque Beija-Flor, recentemente. Parece que agora fizeram a roçagem lá. Mas quanto tempo o lugar ficou sendo foco de Dengue e espaço inóspito para convivência? E o Macambira-Anicuns? Um elefante branco que nunca sai do papel.
Goiânia não é uma cidade sustentável, se a quantidade de lixo que é destinado à reciclagem é ínfima. Não há ações permanentes de reciclagem e não há dados que comprovem à população o quanto de resíduos tem tido a destinação ideal. Nem mesmo incentivo ao Carbono Zero se discute no Paço Municipal.
Goiânia não é uma cidade sustentável, se seus gestores optam por derrubar árvores para construir o Bus Rapid Transit (BRT) ou o que quer que seja.
Não pode ser sustentável uma cidade que vê derrubados seus flamboyants nos canteiros da avenida Goiás Norte, retiradas palmeiras imperiais na avenida 85 e cortadas outras dezenas de árvores em Campinas e no Parque Botafogo.
Deveriam priorizar o reflorestamento urbano, a coleta seletiva, a redução do consumo de água, o incentivo à produção e comercialização de moda sustentável, a inclusão de educação ambiental no currículo escolar da rede pública, a revitalização do centro da cidade, a (re)ocupação de espaços públicos, a implantação de políticas públicas para economia criativa etc. Mas prioriza-se a derrubada de árvores. A incoerência com o slogan de campanha é sem limites.
Paulo Garcia parece ter decidido começar a trabalhar, e as obras do BRT aparentam isso. Mas tem metido os pés pelas mãos. E enquanto a mentalidade do prefeito se pautar pelo imediatismo e pelo desespero de correr contra o tempo para fazer o que não fez em dois anos e meio, Goiânia continuará longe de ser uma cidade sustentável. É lamentável.