Catherine Moraes
fotos: Adalberto Ruchelle
Uma torcida em silêncio e uma bola com guizos internos que fazem o barulho de um chocalho. Na quadra, apenas cinco jogadores em cada time e os passes são quase inexistentes. A bola é conduzida pela parte interna do pé e a comunicação entre os jogadores é verbal. Aqui, segurar pela roupa não é falta sendo o tato e audição as principais formas de orientação.
Ainda assim, falamos de futebol, em uma categoria diferente, mas com as mesmas características básicas. A referência é ao Futebol-de-Cinco, exclusivo para cegos ou deficientes visuais. Nesta semana, Goiânia sedia a Copa Brasil Série B da categoria.
A copa é promovida pela Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais (CBDV), em parceria com a Agência Goiana de Esporte e Lazer (Agel) e da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer de Goiânia (Semel). A abertura oficial foi realizada na manhã desta quinta-feira (13/10) na Associação de Surdos de Goiânia e os jogos vão até o próximo domingo (16/10). A entrada é gratuita.
A abertura contou ainda com apresentação da banda do Prolabor, formada por portadores de deficiência mental que tocaram instrumentos de percussão como caixa, tarol, bumbo e o instrumento de sopro trompete. Após a apresentação, o grupo de balé inclusivo do Centro Brasileiro de Reabilitação e Apoio ao Deficiente Visual (Cebrav) também mostrou o talento.
Oito equipes participam da Copa Série B representando Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Pará, Maranhão, Rio Grande do Sul, Espírito Santo e São Paulo. O desejo de todas elas é o mesmo, chegar à série A, que será garantida pelas equipes campeã e vice-campeã. Já os jogadores pensam ainda em uma possível convocação para a seleção brasileira, que hoje é bicampeã paraolímpica e bicampeã mundial.
Coordenador-geral do evento em Goiás, o professor João Turíbio afirma que o esporte ainda não é muito conhecido na Capital e que Goiânia ainda não tem um time. Apesar disso, ele garante que no próximo ano o time goiano estará formado e vai entrar na competição.
Regras
O jogo tem dois tempos de 25 minutos e intervalo de dez minutos. Além dos cinco jogadores, cada time conta ainda com um chamador que se posiciona atrás do gol adversário para auxiliar os jogadores do time. Com gritos ou com um ferro batendo na trave, ele alerta os jogadores sobre a localização. Os árbitros ajudam na mobilidade quando há substituição de jogadores.
O goleiro é o único jogador a possuir visão total e é pré-requisito apenas que ele não tenha participado de competições oficiais da Fifa nos últimos cinco anos. A área dele, entretanto, é reduzida com apenas dois metros de profundidade e um metro de cada lateral. Junto às linhas laterais, são colocadas bandas – espécie de que impedem que a bola saia do campo e auxiliam na mobilidade dos competidores.
Não importa se os participantes possuem ou não cegueira total, mas, no momento do jogo eles colocam tampão nos olhos, esparadrapo e ainda uma venda preta que os coloca em nível de igualdade quanto à visibilidade. Tocar na venda é falta.
Partida
O primeiro jogo desta manhã foi entre as equipes do Pará (UEESJAA) contra Espírito Santo (ILBES). O resultado foi uma goleada do Pará, que venceu por três a zero. Davison Sousa Monteiro, o camisa 10 do time paraense foi quem mais deu trabalho ao goleiro do Ilbes. Autor de dois gols na partida, ele prova que não veste a camisa 10 à toa.
Impressionado com o desempenho de Davison, o diretor da Unidade Prolabor da Associação Pestalozzi em Goiânia, José Guedes afirma que o atacante tem nível de série A. “O time do Pará optou por usar três na defesa e apenas Deivison no ataque. E ele é bom, sozinho enfrenta, dribla e joga muito bem.”
Importância e visibilidade
“Esse esporte é ferramenta de inclusão social que garante qualidade de vida, independência e melhor mobilidade. Além disso, alguns jogadores recebem bolsa via Ministério dos Transportes que ajuda nas despesas.”, completa o professor Turíbio.
Valmir Stein, de 34 anos, cursa direito e é jogador pelo time do Rio Grande do Sul. Com orgulho, ele conta já ter participado da Copa América pela seleção brasileira em 2006. Ele lamenta, entretanto, a falta de patrocinadores e acredita que a divulgação da modalidade ainda está evoluindo, mas de modo muito lento. Cego desde os 16 anos, quando teve uma lesão no nervo óptico ele afirma que encontrou no futebol lazer, saúde e uma forma de integração.