Théo Mariano
Goiânia – Era manhã do dia 24 de junho, a ansiedade pela vacinação contra a covid-19 fez a empreendedora Rhaissa Vieira, de 26 anos, se mover até o Ciams Novo Horizonte, em Goiânia. À época, a prefeitura aplicava doses em pessoas com comorbidades. Diagnosticada com epilepsia, a dona de uma loja de roupas buscou atestado médico para tentar garantir sua dose. Ao chegar no posto, um fato inesperado: sua condição não se enquadrava e precisou cancelar seu agendamento. Decepcionada, comentou a negativa com as amigas e, desde então, aguardou sua idade para receber a vacina, conforme foi indicado por uma enfermeira da triagem. Nesta segunda-feira (9/8), porém, a jovem teve outra surpresa. Ao conferir por acaso o seu cartão de vacinação on-line, lá constava a aplicação de uma dose da Pfizer no dia 24 de junho — a mesma data na qual não pode se vacinar.

Rhaissa Vieira, empreendedora de 26 anos que foi impedida de vacinar e, ainda assim, teve dose registrada no sistema da SMS de Goiânia / (Foto: Reprodução via Instagram)
Sem entender o motivo de constar ali o recebimento da primeira dose, esta que Rhaissa não pode receber por não figurar entre os casos de comorbidade contemplados, retornou ao mesmo posto onde foi a primeira vez para questionar a possibilidade de algum erro. No local, conforme conta em entrevista ao jornal A Redação, viveu um drama. Segundo a empreendedora, a diretora do Ciams Novo Horizonte, identificada por ela apenas como Kellen, após questionar Rhaissa e também sua equipe de vacinação, começou a acusá-la de estar mentindo, pois teria, sim, recebido a primeira dose — como constava no sistema. "Foi horrível a forma como fui tratada as duas vezes: primeiro por ser desacreditada pela minha doença e, depois, por não acreditarem na minha palavra", relata.
De acordo com a empreendedora, a diretora não deu qualquer instrução que pudesse solucionar o problema, apenas acusou-lhe de ser "mentirosa" e mandou que procurasse o Ministério da Saúde para comprovar sua situação. "Eu comecei a me ajoelhar de desespero e jurar que não havia sido vacinada. Como meu pai, que estava comigo, sabe do meu quadro de epilepsia e se preocupa muito com a possibilidade de eu ter crises convulsivas, ele jogou os exames no chão e ficou muito estressado. Após isso, ameaçaram chamar os seguranças para nos retirarem da unidade, alegando que eu estava ali fazendo cena", conta Rhaissa. Ela ainda relembra que, no local, diversos outros pacientes assistiam à cena. "Eu me senti extremamente impotente, parecia que eu estava ali de mãos atadas. Eu só conseguia chorar, gritar e pedir pelo amor de Deus", diz.
Após o ocorrido, Rhaissa entrou em contato com o suporte da Prefeitura de Goiânia que, segundo afirma, deu "toda a atenção" para seu caso. Os atendentes, neste momento, explicaram que poderia ter havido algum problema no registro do sistema e disseram que bastaria contatar um supervisor de imunização para excluir aquela vacina do cadastro da empreendedora. "Em nenhum momento os enfermeiros, nem a diretora do Ciams Novo Horizonte, me instruíram a entrar em contato com o suporte da prefeitura. Apenas contradizeram a minha versão e mandaram eu buscar o Ministério da Saúde", acrescenta.
Um dia depois do ocorrido, o drama de Rhaissa Vieira teve um final feliz: ela foi vacinada nesta terça-feira (10/8) após, de fato, ter a dose que nunca existiu cancelada de seu cadastro. Ainda assim, como expõe a vítima, resta a dor e a dúvida sobre o que motivou um tratamento tão desrespeitoso por parte de quem deveria apenas instruir. Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) informou que irá verificar o que pode ter acontecido na posto de aplicação durante o atendimento à empreendedora. "A pasta adianta ainda que repudia toda e qualquer atitude que foge às normalidades da ética de um bom atendimento à população", finaliza a SMS.