No instigante “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”, a personagem principal, Clementine, busca uma forma radical para curar a desilusão amorosa: aceita submeter-se a um procedimento cirúrgico capaz de apagar a memória do amor que ruiu. O filme toca em um tema delicado: muito provavelmente todas as pessoas desejam, pelo menos uma vez na vida, esquecer um fato ou decisão que preferiríamos que não tivéssemos tomado. Como todos nós sabemos, porém, é preciso ter muito cuidado com o que desejamos, pois esses desejos podem, de repente, se tornarem realidade.
Algo parecido ocorre neste exato momento, de forma involuntária: a tecnologia ainda não nos permite selecionar as lembranças que queremos guardar, mas, aos poucos, está mudando a forma como nosso Hard Disk cerebral funciona. Ao proporcionar o acesso fácil a quantidades incalculáveis de informações, disponíveis à distância de um clique, a internet afeta diretamente a memória das pessoas.
A conclusão é de um estudo conduzido por psicólogos de três importantes universidades norte-americanas: Harvard, Columbia e Wisconsin-Madson. Em um teste com 106 voluntários, os estudiosos puderam comprovar o que muita gente já intuía: o ser humano, sempre em busca do menor esforço, está cada vez mais delegando aos chips a tarefa que cabia aos neurônios. A conclusão da pesquisa é clara: "Estamos nos tornando simbióticos com as ferramentas de computador, crescendo dentro de sistemas interconectados que fazem com que nos lembremos menos da informação em si, e mais de onde podemos achá-la."
Os críticos desta simbiose detectaram o vilão da história: o Google. Os voluntários foram expostos a quatro testes. Em dois deles, poderiam recorrer ao computador para descobrir as respostas. O resultado mostrou que, quando as pessoas não conseguiam solucionar as questões, imediatamente recorriam ao Google.
O estudo mostrou que a ferramenta de busca não é a única “culpada”, por assim dizer, da diminuição da capacidade de memorizar informações. O Facebook, por exemplo, substitui a tarefa de lembrar as datas de aniversário dos amigos e parentes. Atire a primeira pedra quem nunca se surpreendeu ao abrir o site e se surpreender com dezenas de pessoas desejando felicidade a alguém que é muito próximo e que você simplesmente não sabia que fazia aniversário neste dia. As agendas eletrônicas, disponíveis aos milhares, substituem, com ampla vantagem, a tarefa de decorar números de telefone. E por aí vai.
Aonde essa simbiose vai levar é questão que intriga pesquisadores das mais variadas especialidades: neurocientistas, psicólogos, psiquiatras, sociólogos, antropólogos, engenheiros da computação, filósofos… Ou seja, gente de todos os espectros do pensamento humano. Há quem aposte que a internet está criando uma geração de pessoas sem capacidade de se aprofundar, se especializar, de produzir novos conhecimentos, ou seja, uma geração superficial. Outros acreditam que a tecnologia será capaz de criar um mundo mais igualitário e democrático, onde o compartilhamento do conhecimento trará grandes benefícios.
A questão não é nova. Stanley Kubrick já havia externado o medo coletivo da dependência humana em relação às máquinas em 2001 – Uma odisséia no espaço, em 1968. Naquela época, o pesadelo se chamava HAL 9000, o computador da nave que se rebela. Hoje, o que perturba os sonhos de parte da comunidade científica tem endereço em Montain View, Califórnia.