Goiânia – Caso estivesse vivo, George Harrison completaria ontem 70 anos de idade. Uma pena que um maldito câncer tenha nos privado de seu talento tão precocemente, quando o artista tinha 58 anos no final de novembro de 2001. O timbre sublime, a aura mística e o virtuosismo humilde sem esnobismo de sua guitarra fazem muita falta ao mundo de hoje. Harrison foi um cara que dignificou todos nós humanos. Engajado, talentoso e com convicções firmes. Como eu disse, alguém que ajudou e ainda iria contribuir muito para deixar esse mundo um pouco menos brutal.
Mas não é da sua bela faceta humanística que quero falar nesse texto. Prefiro agora destacar suas virtudes naquilo que lhe deixou famoso mundo afora: sua intimidade com a guitarra. No último domingo, produzi um Interativa Rock especial George Harrison na rádio Interativa FM. Quando estava em casa ouvindo o programa antes de gravá-lo, comentei com minha mulher: “Esse é o Interativa Rock mais bonito que já coloquei no ar”. Ao final da audição, ela concordou. Impressiona a forma como a guitarra de Harrison é poderosa na arte de sensibilizar.
Existia algo de mágico quando o ele tocava. Maldosamente, John Lennon chamava de Harrison de “beatle invisível”. E desprezava o talento de seu companheiro de banda. Puro recalque. Piti motivado pelo rancor. Afinal, Harrison e Paul McCartney odiavam a presença constante da mulher de Lennon, Yoko Ono, nas gravações do quarteto. A verdade é que existe um consenso na crítica de que a obra mais consistente de um beatle na fase solo é de George.
O acúmulo de músicas de Harrison não aproveitadas pelos Beatles gerou o espetacular LP triplo All Things Must Pass – na minha opinião, e de mais meio mundo de beatlemaníacos, o melhor disco solo lançado por um dos quatro. A arrogância e os egos gigantescos de Lennon e McCartney não permitiam que todo potencial de Harrison fosse aproveitado. Quando ele virou dono do próprio nariz, acachapou o mundo com esse álbum que é de deixar boquiaberto qualquer um que ame os bons sons.
No restante da carreira, até mesmo nos pontos mais baixos e menos inspirados, é possível ver a genialidade ali presente. No modo leve, encantador e único que ele soava. Sim, um grande instrumentista, antes de tudo, tem assinatura ao tirar seu som. Antes de entrar o vocal, já precisamos identificar quem está na banda. E quando Harrison está no comando das seis cordas, isso acontece fácil.
Em sua última gravação, a conhecidíssima por nós brasileiros Anna Julia dos amados/odiados Los Hermanos, é clara a assinatura de Harrison. Na interpretação do ex-baterista do Traffic, Jim Capaldi, o ex-beatle fica responsável pelo solo de guitarra. Respeitando a composição original, George faz aquilo que se espera dos gênios: tatue sua marca onde ninguém reconhece valor. Pontos e mais pontos para o cara.
O ideal seria que George Harrison estivesse vivo para ver todas as homenagens que está recebendo. O mundo está longe de ser um lugar ideal. Sempre tem um câncer no meio do caminho para afastar tudo daquilo que consideramos justo. Uma pena. Deixo então minha pequena e insignificante gratidão a tudo que ele representou na minha vida.
Muito obrigado por ter existido, George!