Goiânia – Eu sou um cara velho e com extrema dificuldade para entender o mundo de hoje. Mas dou o braço a torcer: o Halloween chegou para ficar no Brasil. Quando eu era moleque, Halloween era excentricidade restrita às escolas de inglês. Na minha infância oitentista, a gente via os desenhos animados com os personagens fantasiados e não sabíamos sequer quando era comemorada aquela data. Hoje o cenário é outro. O Halloween foi incorporado à realidade brasileira e já pode ser considerado uma festa do calendário. Welcome to the new world, não é mesmo, Elton John?
Percebo essa alteração em curso há mais ou menos dez anos. A ficha caiu quando morava em um prédio e, certo dia, a molecada fantasiada bateu na porta de meu apartamento pedindo doces. Eu não sabia que isso rolava e saquei que algo diferente estava no ar. É claro que não tinha me preparado para receber os garotos. Abri o armário e na então casa de um casal sem filhos não havia estoque de guloseimas. Para não deixar a criançada sem nada, peguei um pote de sorvete Kibon pela metade do congelador e entreguei para as crianças. Quem não tem cão caça com gato.
As escolas tradicionais já absorveram a data e algumas preparam atividades especiais. As casas noturnas promovem concursos de fantasias para os adultos. Em vários condomínios, as crianças bateram de porta em porta atrás de doces. Como eu disse, já se trata de uma data ordinária do calendário brasileiro. Queira Aldo Rebelo ou não com seu perfil Policarpo Quaresma, isso é fato consumado.
Já fui do time do ministro dos Esportes. Acreditava que a chegada do Halloween era uma imposição cultural e fui defensor incondicional do Saci. Fazia cara feia para a popularização da data importada.
Hoje reconheço o valor do posicionamento de Rebelo por, ao menos institucionalmente, tentar resguardar valores brasileiros. Mas percebi que no mundo hiperconectado de hoje, seria um disparate gigante negar a diversão de se fantasiar de monstro a uma geração criada a base de desenhos e joguinhos que tratam a data como algo normal. Mas que baita vendido neoliberal eu me tornei, não é mesmo?
Para você ver onde essa mudança de posição chegou: na última sexta (dia 31/10), pela primeira vez na vida me fantasiei para o Halloween. Fiz uma maquiagem de zumbi para discotecar no Bolshoi Pub que fazia a festa do Dia das Bruxas. E, preciso conferssar: me diverti com todo o processo. Quem conheceu esse escriba na juventude não reconheceria o Pablo de hoje.
Um país de tradição miscigenadora e sincrética como o nosso não fecharia as portas para nada. Se os Estados Unidos aceitaram bem o costume celta, é óbvio que nós aqui também acataríamos a festa. E é provável que em breve daremos nossa cara, com nossas peculiaridades à data. E o Halloween será cada vez mais brasileiro. Como o futebol que também importamos, por exemplo.