Vocês se lembram quando eu cheguei aqui? Naquele dia mesmo eu não tinha ideia onde moraria, com quem passaria seis meses dividindo teto. Na verdade, tudo aconteceu tão rápido, que não deu tempo de imaginar nem criar muitas expectativas. A parte boa é que, assim, a gente se surpreende com tudo. E depois de quase dois meses, uma das coisas que mais tenho me encantado são com as pessoas com quem eu moro.
São 29 brasileiros com quem convivo. No primeiro mês eu estava decorando nomes, descobrindo de onde vinham, o que estudavam, como vieram, compartilhando primeiras risadas, casos. Depois fui conhecendo os jeitos, as personalidades, afinidades e, agora, histórias de vida. Eu não imaginava que almoçaria, todos os dias, com, no mínimo, dez pessoas e que nunca tomaria café só. Todo dia é um batendo na porta para puxar papo, outro vindo dar boa noite, alguém contando da passagem que comprou ou perguntando se o look para balada está legal. Essa semana adoeci e até mingau ganhei. Achei que ia ter que lidar com adoecer sem fazer manha, mas nem foi preciso.
O engraçado é que, estando aqui, aparentemente somos todos iguais: estudamos no mesmo Instituto, comemos o mesmo almoço, janta, dormimos em camas iguais, todos andamos a pé e por aí vai. No entanto, cada vida é uma vida, tão maravilhosamente diferente da outra. Essa semana, quase dois meses morando com tantos brasileiros, me admirei com algumas histórias de quem mora ao lado. O Dani é um gaúcho de 20 anos, estuda Engenharia Civil na Federal de Pelotas e o adotei como irmão mais novo.
Esta semana, voltando da aula de alemão, perguntei para ele por que não sabia nada de alemão, uma vez que os pais dele têm essa descendência. E daí ele começou a me contar sua história. Ele vem de uma cidade de seis mil habitantes do Rio Grande do Sul, Boa Vista do Buricá, daquelas que só há alemães. Seis mil habitantes! Podem imaginar que todo mundo é família por lá. Ele disse, inclusive, que eles acabam indo passear em cidades vizinhas para namorar, porque as opções acabam rapidinho, afinal. Seus avós e pais nunca conheceram a Alemanha, mas ainda assim, a cultura é fortíssima. Seus pais mesmo só falam alemão entre si, mas ninguém da sua geração aprendeu a língua.
Na pequena Boa Vista, a família de Dani mora na roça. O pai é agricultor e a mãe cozinha em fogão a lenha todo dia. Todo dia, entende? Não é sítio de fim de semana. Dani morou na zona rural até os 16, quando foi para cidade estudar e trabalhar. De lá, Pelotas, onde foi começar sua graduação. Nunca tinha ido à cidade e foi lá que, pela primeira vez, aos 18 anos, comeu um Mac Donalds (fast food que os pais nunca comeram). Porto Alegre mesmo ele foi, no máximo, quatro vezes na vida. E está aí, com passagem para Amsterdam e Londres para mês que vem.
Élder é outro que ganhou minha admiração. Também 20 aninhos e estuda Engenharia Química em Viçosa (MG), mas é de Leopoldina. Lá, a mãe é cabeleireira. Um dia, voltando do supermercado, me contava da capacidade de poupar e economizar dele e da mãe. Por aqui, ele é um dos poucos que os Euros não vêm dos bolsos dos pais. Tudo o que gasta aqui: para sobreviver e para viajar, veio do suor dos seus estudos. Os 2.500 Euros poupados por muito tempo e agora bem gastos aqui vêm de prêmios de Olimpíadas de Matemática, monitoria de cálculo e bolsas de iniciação científica.
Outra que ralou muito para estar aqui é Lílian, da Bahia. Faz enfermagem na Federal do Recôncavo Baiano e está aqui desde fevereiro (é aquela que me ensinou a dançar kuduro!). Lílian era faxineira. Contou que ganhava R$ 2 para lavar cada banheiro e lembra como ficou feliz quando juntou suficiente (R$ 56) para comprar uma sandália Anabela. Quando estava no terceiro ano do Ensino Médio, seu objetivo era entrar numa universidade pública. Revezava seus estudos com trabalho de manicure.
Para reforçar seu preparo para o exame, um dia pediu para o dono de um cursinho pré-vestibular uma bolsa de estudos e conseguiu. Entrou numa universidade particular, foi contemplada pelo Pró-Uni, mas não desistiu de tentar uma universidade pública. Até que entrou e, de cara, ficou sabendo do edital para intercâmbio em Portugal. Como não tinha dinheiro para passagem, nem se inscreveu. Da segunda vez que o edital abriu, ela tentou e passou. Sem dinheiro para passagem, para comprar roupas de frio, calçados e outros gastos por aqui, fez um livro de ouro. Passou para colegas, professores, reitores, amigos assinarem e contribuírem. E é assim que ela está aqui, conhecendo a Europa, fazendo estágio e mudando sua visão de mundo.
E acho que é aí que está a graça disso tudo, desse intercâmbio. Ainda que seja incrível estudar aqui, conhecer a cultura portuguesa, europeia e todas as maravilhas que esse continente oferece, me parece que eles flutuam mais no tempo. Porque, na verdade, a Torre Eiffel não vai sair de lá tão cedo. Nem o Vaticano, o Rio Reno ou a Sagrada Família. Mas é só uma vez que todos nós estaremos aqui convivendo uns com os outros. É num curto espaço de uma linha reta que conheço tantas pessoas, naquele lugar, naquela circunstância. E como diriam os sempre Novos Baianos, pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto.