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Infelicidade engorda

01.11.2011 - 11:44:35
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Era para ser sobre outra coisa. A coluna dessa semana trataria de outro tema, mas eis que o telefonema de um amigo muda tudo. Ele me liga no domingo à tarde, com uma voz cavernosa de ressaca, e dispara, ansioso: “Por favor, peça para as mulheres pararem de fazer regime!”.

Sem entender, pergunto a razão do pedido. Ele me conta uma longa história, que vou tentar resumir. Meu amigo namora há tempos uma moça linda. Uma verdadeira beldade, sempre chama a atenção por onde passa. Em nome da boa forma, ela é capaz de passar fome, raiva e muito estresse.

No sábado, os dois tinham um casamento para ir. Ele quis aproveitar o dia lindo de sol no clube, tomando cerveja com os amigos. Ela ficou em casa, porque sol envelhece e cerveja engorda. Diante da piscina, falando bobagem e rindo à toa, meu amigo foi apresentado por um dos colegas a uma moça. Gordinha, tipo comum.

Mas acontece que a moça tinha um papo bom demais. Além de inteligente e divertida, também era desencanada. Com umas sacadas legais para cada assunto, interagia com a turma toda. Diferentemente das outras mulheres, nem ligava para o fato de estar acima do peso. Usava biquíni sem problemas, alegre e feliz.

Depois de uma tarde inteira com essa companhia maravilhosa, meu amigo começou a ver a gordinha com outros olhos. A moça sem graça, que facilmente passaria despercebida por ele no shopping ou numa boate, transformou-se numa mulher charmosa, segura e, sobretudo, que tinha algo que faltava à sua namorada.

“Mas o que ela tem de especial, criatura?”, pergunto, impaciente. “Alegria de viver!”, responde ele. Durante a festa do casamento, meu amigo conta que foi impossível não comparar as duas. A namorada estava mais linda do que nunca, e também mais chata do que jamais conseguiu ser. Não bebeu, não comeu doces, não se divertiu.

Preocupada em não ganhar nenhum grama de gordura, ela reclamava da tentação do buffet maravilhoso e da mesa de bombons escandalosa, enquanto não parava de reparar nas outras convidadas e botar defeito. “Olha só! Como uma pessoa tem coragem de usar decote com essas costas cheias de banha?”, fulminava ela.

Todo mundo de olho na namorada dele, e meu amigo não parava de pensar na gordinha — que, a essa hora, deveria estar se divertindo horrores num bar com a turma, tomando um chope sem culpa e provando uma bela picanha.

Meu amigo encerra a história dizendo que não vê nenhum mal no fato de a mulher ser vaidosa, mas que fica de saco cheio quando a vaidade vira neura, obsessão total. Diz que mais importante que ser magrela é ser feliz, e que não há nada mais afrodisíaco que uma mulher bem-humorada.

Essas palavras ecoaram na minha cabeça. Ele está certo. Ninguém consegue ser tão cruel e implacável com uma mulher quanto que ela própria. Essa busca esquizofrênica pela magreza (que, equivocadamente, relacionamos com beleza) nos impede de aproveitar a vida e nos força a negar nossa própria natureza.
Por causa da personagem gostosona Natalie Lamour, a atriz Deborah Secco foi eleita a mulher mais linda do planeta. Porém, na matéria da revista em que dá entrevista sobre o título, a artista que aparece é uma moça esquálida, com uma magreza etiópica e cara de doente, que de bela não tem muita coisa.

A atriz diz que preferiu emagrecer depois da novela (como se tivesse quilos em excesso para perder) porque se sentia “vulgar” naquele corpão e queria ficar mais “elegante”. Pois é: saúde e exuberância agora são sinônimos de vulgaridade, enquanto chique mesmo é parecer um cabideiro, um galho de árvore.
Ouvi 15 homens sobre o assunto e a opinião foi unânime: quem gosta de osso é cachorro e estilista gay. Mulher pode (e deve!) ter curvas e carne. Quanto mais quilos você perde, menos graça eles acham. A menos que você seja homossexual e queira seduzir outra mulher, é melhor mudar de estratégia.

Malhar, ter uma alimentação saudável, pele e cabelo legais é muito bom. Só não pode ser melhor que a busca pela felicidade. Se atingir o seu patamar de beleza lhe impede de curtir os bons momentos que a vida oferece e é sinônimo constante de sofrimento e privação, cuidado.

Mulheres eternamente insatisfeitas com seus corpos trazem consigo uma vibração muito pesada. A energia negativa que emanam diante do doce que não comem, do chope que não degustam e da magreza que invejam daria para alimentar uma usina nuclear. Não adianta fechar a boca e ficar de olho na balança. O ponteiro vai subir, porque infelicidade engorda a alma.

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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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