Goiânia – Quem acompanha essa coluna desde seu nascimento, sabe das delícias e das dores que vivi durante um intercâmbio no Instituto Politécnico de Bragança, numa cidade no nordeste de Portugal com pouco mais de 30 mil habitantes.
Em meio às experiências únicas que viver em um país estrangeiro proporciona, senti o preconceito, pela primeira vez, doer no fundo da alma. Me descobri mulher e brasileira, uma mistura perigosa em Portugal (igualmente em outros locais europeus) e perigosíssima em Bragança.
Como
relatei e volto a relatar, um episódio que foi parar na capa da Time conhecido como “Mães de Bragança” continua a assombrar brasileiras que passam por ali. Moravam muitas prostitutas brasileiras ali que começaram a provocar divórcios. Maridos deixando famílias para se juntar às brasileiras. As mães de Bragança foram à imprensa e depois de muito bafafá expulsaram as mulheres dali e conseguiram que as casas de prostituição fossem fechadas.
Cinco anos depois, saí para uma festa nessa mesma cidade. Como tantas vezes saio aqui e em qualquer outro lugar. Voltei e dormi com a cara enfiada no travesseiro depois de tanto chorar. O rímel e lápis que me enfeitavam para festa ficaram na fronha.
Gratuitamente, um garoto, do IPB (ele vestia trajes utilizados pelos alunos do instituto durante a praxe, nossa calourada) disse para mim que as portuguesas eram ótimas, mas nós, brasileiras, éramos melhores em alguns aspectos. Sem entender, questionei: como assim? “Vossas bundas são melhores”.
A turminha de amigos toda riu com a piada. Não era tom de brincadeira. Guardava tom de raiva, como todas as afrontas que enfrentamos (e que podem ler
aqui). Era isso, eu tinha sido reduzida a minha bunda por um desconhecido no meio do estrangeiro. Respondi, xinguei, depois tentei permanecer normalmente na festa, mas fui pra casa chorar.
Quando me deitei, só tinha consciência de uma coisa: tinha sido agredida pelo que não sou. Quando acordei, me dei conta de que isso não era um problema pessoal. Ao longo de semanas, compartilhei com as mulheres com quem morava (era uma residência estudantil; mais de 15 brasileiras) e então me dei conta de que era um problema social. Toda garota brasileira tinha, pelo menos, uma história de preconceito para contar. Algumas, mais graves, como agressão física na rua.
A gota d’água aconteceu quando duas colegas nossas foram agredidas na rua por crianças. Isso, por pessoas com menos de dez anos de idade. Ouviram o sotaque e começaram a agredir raivosamente. “Bate irmã, bate, é puta, é puta”. E as duas crianças começaram a agredir as duas brasileiras até que as garotas chegassem em casa. Ficaram perplexas, sem saber o que fazer.
Minha amiga me ligou em seguida. Assim que desliguei o telefone senti que estávamos desafiados a tentar mudar uma realidade bizarra, que batia em nossa porta.
O primeiro passo foi buscar o diálogo com IPB. Não diria que fracassamos. Recebemos um apoio que foi quase um: “vocês estão certos, mas não estamos juntos. Vai lá e façam. Estamos aqui”. Disseram que os alunos do IPB eram imaturos. Foi essa a palavra para xenofobia e preconceito: imaturidade. Pois bem, fizemos. Reunimos caboverdianos, turcos, espanhóis e brasileiros para fazermos uma manifestação que também consta
nesse texto.
Conseguimos apoio de prefeitura e bares; fizemos material e fomos às ruas mais do que denunciar o preconceito: expressar a riqueza de nossa diversidade cultural e como isso era importante para a pequena e pacata Bragança.
Quem vive um intercâmbio, que é sempre efêmero (seis meses ou um ano para dar conta de todas as novidades), sabe que de longe é prioridade entre estudantes se reunir para discutir problemas sociais. É festa, é estudo, menos política.
E nos reunimos. Uma, duas, três, quatro vezes antes da manifestação. Depois, outra reunião de avaliação para pensarmos dali para frente. Mas, é claro, é muito difícil pensar um futuro que não te pertence. Faltava pouco mais de um mês para eu ir embora, com uma agenda de provas e viagens de despedida. Assim como para vários. Os que conhecem o problema vão embora, os que chegam começam a descobri-lo da mesma forma violenta como descobrimos.
Claro, nos demos conta de que o problema tinha que ser passado para frente: para as universidades que realizam o convênio. Compartilhamos, lá, com IPB e aqui com nossas universidades.
Quando compartilhei com a coordenação do IPB o que nos ocorria, pediram para que déssemos nomes para que os alunos fossem punidos. Eu nem tinha ideia de como se chamavam. Mas o desejo não era só de punição. Propusemos mais que punição. Propusemos enxergar que estávamos diante de uma riqueza cultural (mais de 20 nacionalidades dentro de uma universidade) e de um preconceito decorrente dessa mistura. Propusemos traçar um caminho pelo qual se combatesse o racismo e a xenofobia.
Na época, chegamos a falar em cineclubes com debates. Semanas culturais em que todos pudessem mostrar sua cultura de diferentes formas, acreditando que parte do preconceito vem do desconhecimento e falta de interação. Propusemos debates com professores e estudiosos. Mais, que os professores se envolvessem e não permitissem qualquer segregação em sala. Que eles deixassem de fingir que não viam o preconceito e se tornassem agentes que combatessem a xenofobia. Também sugerimos que os intercambistas de lá e daqui, depois da experiência, pudessem se colocar à disposição para combater esse tipo de preconceito.
Quando retornei, conversei pessoalmente com a pró-reitora de assuntos internacionais e com coordenador do meu curso e denunciei o que aconteceu. Chegaram a me perguntar se romper o convênio era uma sugestão. Neguei e continuo negando. Fazer isso é perder uma grande oportunidade de crescer na capacidade de tolerância cultural.
Agora, de cá, assisto a Universidade Federal de Goiás perder a mesma oportunidade que o IPB. Em fevereiro um aluno da UFG, morador da casa de estudantes, homossexual, foi agredido (pela sua orientação sexual) por dois alunos intercambistas. De onde? IPB! Depois de um processo aberto, os portugueses receberam apenas uma advertência. De acordo com a UFG, não poderiam ser expulsos porque já estavam indo embora.
Circula na internet um abaixo assinado para que eles não tenham os créditos cursados aqui aproveitados. Já são quase duas mil assinaturas. A indignação cresce diante da impunidade.
Fico me lembrando das palavras que ouvi: os alunos do IPB são imaturos. Ora, imaturidade não tem a ver com caráter, com intolerância e com incapacidade de lidar com quem é diferente. A imaturidade dos alunos do IPB desencadeou em um crime. Mas daí, como alunos imaturos, são perdoados e voltam como se nada tivesse acontecido? Fiquei pensando que se talvez algo já tivesse começado para tentar combater essa prática de preconceito que envolve diversos aspectos (gênero, raça, nacionalidade), talvez o garoto brasileiro não tivesse sido agredido.
A punição é necessária. Eles foram embora, mas há alguém aqui ferido, agredido, que tenha sofrido um dano que precisa ser reparado. Há outros alunos do IPB que continuarão a vir para a UFG que precisam saber que intolerância não é admitida aqui. Mas a punição é insuficiente, porque não educa. Porque não são casos isolados; como os garotos que agrediram os brasileiros aqui, há centenas de outros lá. Há crianças se formando nessa mesma cultura machista, conservadora e xenófoba, como as que bateram em minhas amigas.
Dialogar, discutir, preparar para receber e preparar para enviar os alunos. Nem UFG nem o IPB podem ignorar o que acontece desde que o convênio foi estabelecido: uma belíssima troca de experiências e conhecimentos e também de intolerância. Caras instituições, não percam a oportunidade de ir para além dos muros da universidade e se envolverem com um problema mundial da intolerância cultural e de gênero que acontece dentro dos muros das próprias universidades.
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