A verdadeira paixão que adolescentes e crianças sentem pela internet costuma despertar pesadelos nos pais e desconfiança nos educadores. As críticas variam da suposta falta de socialização por parte dos jovens, que preferem se conectar via modem a se conectar pessoalmente, da vulnerabilidade em relação aos criminosos virtuais, como pedófilos, e ao desinteresse pelos estudos, pois é inegável que a janela do computador é muito mais atrativa para este público que os antiquados livretos de tabuada.
Mas o bicho-papão pode não ser tão feio quanto parece. Pelo menos é o que cientistas da Escola de Estudos Sociais da Suíça concluíram, com 724 crianças na faixa dos sete aos dez anos de idade. Os pesquisadores avaliaram o impacto que a internet tem na capacidade de escrita dos estudantes e constataram que os alunos que têm mais experiência on-line produzem redações melhores que os demais.
A pesquisa, divulgada na terça-feira (12/6), foi conduzida pelo professor Hans-Jakob Schneider e teve patrocínio do Fundo Nacional Suíço, organismo governamental de fomento à pesquisa. As crianças foram divididas em dois grupos: um com acesso livre à internet, onde podiam ler, escrever e conversar com outras pessoas; e outro que estudaram com uso dos métodos convencionais. O primeiro grupo foi incentivado a inscrever-se em um sistema on-line, enquanto os demais produziram redações em lápis e papel. O resultado surpreende quem costuma demonizar os meios digitais.
Os professores concluíram que as crianças que tiveram acesso à web tiveram mais habilidade em linguagem narrativa, além de saberem utilizar melhor recursos para prender a atenção do leitor. Uma outra preocupação recorrente de pais e educadores também não se concretizou.
A escrita telegráfica, cheia de gírias, símbolos e abreviações, utilizada principalmente nas salas de bate-papo e programas de mensagens instantâneas, é, geralmente, acusada de prejudicar a compreensão das regras gramaticais e ortográficas dos estudantes. A tese não foi confirmada pelo estudo suíço. Ao contrário, as crianças acostumadas a lidar com a web tiveram menos erros ortográficos que aquelas que se prenderam aos métodos tradicionais.
Segundo os cientistas que participaram do estudo, o sucesso ocorreu porque os alunos internautas perceberam melhor técnicas de outros redatores bem-sucedidos e utilizaram este conhecimento para produzir os próprios textos. Tudo de forma intuitiva.
O estudo não acaba com a discussão. Na prática de sala de aula, não são raros os relatos dos professores que acusam o internetês de atrapalharem o aprendizado da língua portuguesa por parte dos estudantes. O senso comum é de que os padrões da internet priorizam a agilidade em detrimento da forma.
Cabe aqui uma reflexão: a vilã, nesses casos, seria a internet ou a falta de habilidade dos pais e educadores em estimular o seu uso de forma que ocorra uma agregação de valor ao aprendizado? Afinal, entre as missões da escola é formar cidadãos aptos a se integrarem com o mundo e estar conectado é, hoje, condição indispensável para isso.